A guerra adiou por décadas o tradicional duelo entre direita e esquerda. Com o futuro dos acordos de paz em jogo, a Colômbia elege neste domingo (17) seu novo presidente, entre um ex-guerrilheiro e o discípulo do ex-mandatário mais popular do século. O segundo turno das eleições presidenciais é disputado por Iván Duque, de direita, e Gustavo Petro, de esquerda. Eles propõem caminhos diametralmente opostos para a quarta maior economia da América Latina.

Mais de 36 milhões de eleitores vão definir o futuro do acordo de paz que desarmou a ex-guerrilha Farc. Apesar de no ano passado ter evitado 3 mil mortes, o acordo dividiu profundamente uma sociedade anestesiada por mais de meio século de violência. "São eleições transcendentais", afirmou no domingo Juan Manuel Santos, o presidente que deixará o poder em agosto, ao votar durante a manhã na Praça de Bolívar de Bogotá.

O Nobel da Paz de 2016 destacou as "garantias" de segurança que os eleitores terão, em um país onde a violência afetou por décadas as eleições. A jornada eleitoral começou às 8h00 locais (10h00 de Brasília). Os locais de votação devem ficar abertos por oito horas.

A autoridade responsável pela organização do pleito alertou para as chuvas em diversas zonas que poderiam afetar a votação, em um país com índice de abstenção que historicamente beira os 50%.  

Frente a frente

Duque, que promete modificar o pacto, é o favorito das pesquisas. Com 41 anos, o afilhado político do polêmico ex-presidente Álvaro Uribe (2002-10) pode se tornar o mandatário mais jovem eleito na Colômbia desde 1872. 

Petro, de 58 anos, é um ex-guerrilheiro do M-19, já dissolvido, que defende os acordos de paz e grandes reformas e pretende romper o histórico controle da direita. 

Com a antiga guerrilha comunista transformada em partido e diálogos contínuos com os rebeldes do ELN, a luta contra a corrupção e o narcotráfico, assim como as relações e a migração sem precedentes da Venezuela, ganharam espaço na campanha. 

Vencedor do primeiro turno com 39% dos votos, Duque tem experiência política de quatro anos. Embora tenha se destacado no Senado, chegou ao Parlamento por uma lista fechada liderada por Uribe. "Nada é dele, tudo foi alavancado pelo capital político que o ex-presidente Uribe tem", garantiu Fabián Acuña, cientista político da Universidade Javeriana.

Duque pretende recuperar o cargo máximo do país para uma direita contrária ao acordo com as Farc, diminuir os impostos para as empresas e levar a pressão internacional contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela. Ex-prefeito de Bogotá, Petro trouxe de volta à política colombiana os discursos de praça e a convocação de multidões. 

Contudo, na corrida eleitoral, que lhe rendeu 25% dos votos no primeiro turno de 27 de maio, ele se afastou das ruas e não participou de nenhum debate na televisão, diante da recusa de seu adversário. 

Em um país de 49 milhões de habitantes, com 27% de pobreza e o maior produtor mundial de cocaína, Petro apresenta uma série de reformas destinadas a "aprofundar a paz", que ele apoia irrestritamente. Suas propostas de tributação de latifúndios improdutivos, migração para uma economia que menos dependente do petróleo e do carvão, empoderamento dos camponeses e críticas às políticas antidrogas atuais preocupam as elites.

"A necessidade de mudar as coisas é fundamental, vamos construir uma Colômbia humana em paz, que se reconcilie consigo mesma", apontou Petro neste domingo.