A crise política tem obrigado alguns dos principais atores do sistema partidário brasileiro a se reinventar para superar a crescente desconfiança do eleitorado. A estratégia será novamente testada em outubro. Nos últimos dez anos, sete legendas – grandes, médias e pequenas – mudaram oficialmente de nome, abolindo a palavra “partido” e buscando o que o mundo corporativo define como “reposicionamento de marca”. 

Tais alterações, porém, não significam grandes mudanças no elenco das agremiações, formado, na maioria, por caciques já conhecidos pelo eleitorado e representantes da chamada “velha política”.

O pioneiro nesse movimento foi o Partido da Frente Liberal (PFL), que, insatisfeito com o resultado das eleições de 2006, consultou marqueteiros e mudou o nome, no ano seguinte, para “Democratas”. Recentemente, muito em razão do agravamento da situação política no país, novas alterações foram feitas. 

O caso mais destacado é o do gigante PMDB, que aboliu o “P” e passou a ser somente MDB – de volta ao nome dos tempos do bipartidarismo, no qual se opunha à Arena, durante o governo militar. 

Atitude semelhante tomou o Partido Progressista, que virou apenas “Progressistas”, mas manteve caciques como Ciro Nogueira e Dimas Fabiano no comando. 
O Partido Trabalhista Nacional (PTN) foi rebatizado “Podemos” e tem o veterano senador Álvaro Dias (ex-PSDB e ex-PV) lançado ao Planalto; o Partido Trabalhista do Brasil (PT do B), presidido desde 2006 pelo deputado federal mineiro em segundo mandato Luís Tibé é agora “Avante”; o Partido Ecológico Nacional (PEN) passou a ser conhecido como “Patriota” e o Partido Social Democrata Cristão (PSDC), do eterno presidenciável José Maria Eymael, tornou-se “Democracia Cristã”. 

Novidades
Também surgiram novas agremiações, registradas oficialmente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta década, que abdicaram do termo “partido” em suas designações. 

Um dos exemplos mais emblemáticos é o Novo, com apenas um vereador na capital – Matheus Simões – e ainda não fez representantes na Assembleia, na Câmara e no Senado. Tem ainda o Solidariedade, que pretende lançar o ex-deputado estadual e ex-prefeito de Ibirité Dinis Pinheiro (ex-PP) ao governo de Minas ou ao Senado, e a Rede Sustentabilidade, da ex-ministra e pré-candidata à presidência Marina Silva. Todos as legendas criadas estrearam nas urnas na eleição de 2016.

Essas agremiações se juntam ao Partido Republicano da Ordem Social (PROS), ao Partido Pátria Livre (PPL), ao Partido Social Democrático (PSD), ao já mencionado Patriotas (PEN) e ao Partido da Mulher Brasileira (PMB) como as oito novidades deferidas pelo TSE no sistema partidário nacional, a partir de 2011.

Tapume
Para o consultor e especialista em branding (gestão de marcas) Levi Carneiro, da Ideia Comunicação, de Belo Horizonte, o movimento de mudança de nomes de agremiações políticas brasileiras, embora tenha um lado positivo – inspirado em movimento iniciado em países europeus, como a Espanha, com o esquerdista “Podemos” –, pode ser um tiro no pé. 

“O aspecto positivo diz respeito ao questionamento que está sendo feito mundialmente, inclusive no Brasil, quanto à forma tradicional de representação política, por meio dos vários coletivos que estão se organizando além do sistema partidário e se tornando atores políticos reconhecidos”, diz.

“Por outro lado, na área de branding costumamos dizer que marca não é tapume. Não adianta mudar apenas o nome e a identidade visual de uma empresa, ou, no caso, de uma agremiação política, se ela continua com as práticas e as pessoas de sempre”, acrescenta o especialista.

O cientista político Malco Camargo concorda que há uma diferença importante entre o que vem ocorrendo no Brasil e experiências parecidas, de dar nomes diferentes a partidos políticos, em outros lugares do mundo.

“O ‘Podemos’ espanhol, por exemplo, emerge de um movimento social que se organiza para ocupar um espaço político. Na estratégia que observamos no Brasil, frente à crise de representação que alguns partidos enfrentam, o que parece que estão tentando fazer é criar apenas uma nova roupagem para as legendas com os mesmos personagens, na busca de seduzir o eleitor”, afirma.

Camargo ressalta ainda que o ideal seria que os partidos brasileiros, em vez de se preocuparem com nomes, tivessem bem estabelecidos e seguissem à risca objetivos e metas baseados em ideologias claras e bem reconhecidas pelo eleitorado. 

Representantes nas novas siglas refutam críticas

Integrantes das legendas que dispensam a alcunha de partidos e surgiram no país a partir de 2010 garantem que a intenção foi muito além de mudar marcas para tentar contornar o descrédito do eleitorado.

O secretário-geral do Solidariedade em Minas, Luiz Carlos Miranda, diz que a ideia da fundação da nova agremiação, há quatro anos e meio, partiu da percepção de que a política precisava de novas atitudes e ideias, não apenas no Brasil como no mundo. 

“Há seis anos, quando começamos a criar o Solidariedade, nossa intenção foi a de dar uma resposta inovadora à sociedade, que cobrava mudanças nas práticas políticas. É o que estamos fazendo ao montar nossos quadros”, afirma, lembrando que, hoje, a legenda conta, em Minas, com 228 vereadores, 19 prefeitos e 29 vices. 

Questionado sobre o fato de a agremiação contar com muitos políticos oriundos de outras legendas, como o próprio presidente nacional do Solidariedade, o deputado federal Paulinho da Força, e o ex-deputado Dinis Pinheiro, pré-candidato nas próximas eleições, Miranda diz que isso não é relevante, porque são pessoas que querem mudanças. “Dinis Pinheiro, por exemplo, está há quatro anos afastado do legislativo e atuando no sentido de criar práticas políticas no Estado”, diz.

Ruptura
O vereador Matheus Simões (Novo), único parlamentar da legenda em Minas até o momento, critica a simples mudança de nomes ou criação de nomenclaturas para partidos que não signifiquem ruptura com os padrões atuais da política.

“Se partirmos só da lógica da nomenclatura, de fato muitas novidades estão aparecendo. Mas quando se passa à avaliação da prática política, isso não é verdade: alguns desses partidos apenas recebem desertores de outros e a tendência é que sigam com o mesmo comportamento de sempre”, diz.

Para Simões, o que será captado pelo eleitor, nas próximas eleições, nas quais o Novo pretende obter 30 cadeiras na Câmara dos Deputados, são os compromissos de cada agremiação. 

“Nesse sentido, nós, do Novo, por exemplo, temos regras claras quanto à atuação política. Por exemplo, não utilizamos o fundo partidário, proibimos que políticos ocupem cargos de direção no partido e a reeleição para qualquer cargo e fazemos concursos para escolher nossos candidatos”, explica. 

Para a porta-voz da Rede em Minas, Ana Paula Siqueira, a agremiação capitaneada por Marina Silva segue a mesma filosofia, a de inovar a política, mesmo que conte com figuras carimbadas em seus quadros, vindas de outras legendas – caso, por exemplo, do vice-prefeito de Belo Horizonte e ex-deputado estadual Paulo Lamac, ex-PT. 

“A Rede busca a renovação, mas uma renovação que não passa apenas por pessoas novas. Passa, principalmente, por pessoas que não tenham histórico de envolvimentos em processos de corrupção ou que sejam contrários aos princípios da boa política”.<EM>

Outras  práticas
A ideia de renovação também é defendida por partidos que mudaram de nome para enfrentar aparente rejeição eleitoral. O deputado federal Rodrigo Pacheco, ex-MDB e que entrou recentemente no Democratas, do qual tornou-se presidente e pré-candidato ao governo de Minas, destaca que, no frigir dos ovos, o que conta mesmo é a intenção de mudar práticas e procedimentos no universo político.

“Mais do que uma mudança de nome ou de marca, o importante é uma mudança na forma de se fazer política. Uma mudança programática, com novas ideias e sintonizada com as demandas da sociedade”, afirma o parlamentar.