A legalização da maconha no Canadá, que se tornará efetiva "no verão (hemisfério norte)", é observada de perto pelos aliados de Ottawa que poderão segui-la rapidamente - declarou o primeiro-ministro Justin Trudeau em entrevista exclusiva à AFP.

Promessa de campanha, a medida fará do Canadá o primeiro país do G7 a autorizar a produção, a comercialização e o consumo dessa droga, cinco anos depois do Uruguai, primeiro Estado do mundo a fazê-lo.

O Senado canadense deve adotar uma versão final do projeto de lei no início de junho para que entre em vigor "durante o verão (boreal)", segundo o premiê.

"Há muito interesse dos nossos aliados pelo que estamos fazendo. Eles reconhecem que o Canadá está percorrendo um caminho audacioso (...) e reconhecem nossa honestidade, quando aceitamos que o sistema atual não funciona para impedir que os jovens tenham um fácil acesso à maconha", garantiu, a um mês da cúpula de chefes de Estado e de Governo do G7 no Canadá.

"Em muitos países, entre eles o Canadá, é mais fácil (para um menor de idade) comprar um baseado do que comprar uma cerveja. Isso não tem nenhuma lógica! E, além disso, é uma terrível fonte de receita para o crime organizado", continuou.

Seu governo liberal considera que, "ao controlar e regulamentar a venda da maconha, poderemos proteger melhor nossas comunidades, nossos jovens", explica.

"Os aliados, com os quais temos falado, estão interessados em ver como isso vai acontecer (...) antes de se aventurar", destacou Trudeau, sem especificar os países, aos quais se refere.

"Se funcionar bem, e eu espero que funcione bem, me surpreenderia se levassem muito tempo para considerar que o modelo pode funcionar para eles", afirmou.

Uma vez que o governo federal tenha legalizado a maconha, províncias e territórios terão a tarefa de organizar sua comercialização. Ontário e Québec, que representam mais de dois terços da população canadense, já preveem um marco regulatório estrito nas mãos de empresas públicas especializadas.

Em termos de valor, a produção da "indústria de cannabis iguala a da indústria de cerveja" e é "maior do que a indústria do cigarro", segundo números oficiais que estimam em 5,7 bilhões de dólares canadenses (cerca de US$ 4,4 bilhões) os gastos dos canadenses com maconha em 2017.

Educação das mulheres

Na mesma entrevista, o premiê disse ainda que o Canadá quer aproveitar a cúpula do G7 para lançar ações concretas a favor da educação das mulheres em zonas de crise.

Os dirigentes dos sete países mais industrializados (Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Japão e Canadá) se reúnem em 8 e 9 de junho na região de Charlevoix, em Québec.

Entre os grandes temas internacionais - a questão nuclear iraniana, o conflito na Síria, a Coreia do Norte, ou as tensões comerciais -, o premiê canadense quer mobilizar seus colegas em torno da igualdade de gênero, com a criação de um conselho consultivo sobre o tema no G7.

"A paridade, a defesa dos direitos da mulher, a inclusão das minorias LGBT e outras em uma sociedade não é apenas um tema moral, é um tema profundamente econômico", disse Trudeau à AFP.

Lembrando que "o G7 é, antes de tudo, um grupo econômico", Trudeau quer "convencê-los e demonstrar" que, nesse tema, há "uma grande oportunidade".

O dirigente liberal quer estimular seus aliados a atacar esse assunto nos países em desenvolvimento, onde são necessários "muitos investimentos", em particular, em "contextos de crise, nos campos de refugiados, (onde) a educação para as meninas é quase inexistente".

"Sim, como países do G7, podemos investir na educação das mulheres e meninas em situação de crise, vamos diminuir o impacto da crise (...) e vamos garantir que não se perca uma geração", insistiu o premiê, que também defendeu que se preserve a capacidade "dessas mulheres e meninas de contribuir para um mundo melhor".

Alerta contra nacionalismo e populismo

Ainda em relação ao G7, o premiê disse esperar que a cúpula seja uma oportunidade para tranquilizar os cidadãos insatisfeitos que buscam respostas no nacionalismo e no populismo.

"Muitos países e muitos cidadãos questionam os sistemas, seja por excesso de nacionalismo, por um populismo um pouco exagerado, (ou por) temas antiglobalização", aponta Trudeau.

"Isso deve estar no centro das discussões que teremos no G7: como tranquilizar os cidadãos sobre o futuro que estamos construindo juntos", afirmou.

"É importante estarmos atentos e manter essa ordem, essa paz, essa estabilidade, essa previsibilidade que nos ajudou a criar tudo que conseguimos hoje", acrescentou, falando com a AFP em seu gabinete no Parlamento federal de Ottawa.

Ele disse ainda estar convencido de que o G7 saberá "unir em temas de segurança e crescimento econômico" com "verdadeiras e sólidas discussões sobre como avançar juntos".