A economia brasileira ainda vai demorar a sair da estagnação, sugere pesquisa do SPC Brasil, que aponta que 66% dos micro e pequenos empresários da área de varejo não pretendem investir nos próximos três meses. O mesmo levantamento revela que 84,9% dos entrevistados não querem contrair crédito no mesmo período.

A pesquisa, com dados de março, apresenta uma pequena piora na comparação com fevereiro. O índice de interesse em investir (que vai de 0 a 100) caiu de 34,3, em fevereiro, para 28,4 no mês passado. Já o recuo na demanda por crédito (que também vai de 0 a 100) passou de 16,2 para 13,3.

“Esses indicadores historicamente sempre têm um patamar reduzido. Mas quando falamos no investimento, é sempre preciso considerar que passamos por um período em que ele esteve muito baixo. Com uma recuperação, o empresário precisaria arrumar a loja e cuidar do que depreciou, por exemplo. No entanto, o indicador continua pequeno, o que aponta que a recuperação ainda está um pouco longe”, analisa a economista-chefe do SPC, Marcela Kawauti.

Vale lembrar que, além da falta de necessidade (43%), os empresários apontam que a crise econômica (29,9%) e a escassez de recursos ou crédito (12%) pesam na hora de investir.

A economista da CDL-BH, Ana Paula Bastos, reforça que os micro e pequenos empresários têm menos capacidade de lidar com o baque da crise. “Muitos estão no limite de pessoal e endividamento, não têm funcionários e trabalham com a própria família”, diz, se baseando em indicadores específicos sobre Belo Horizonte, divulgados pela CDL no começo do mês.

A situação descrita por Ana Paula é vivenciada por Sidneia Santos. Ela é gerente de uma loja de manutenção e venda de equipamentos de costura, de propriedade do marido, no Prado. Com 30 anos no mercado, luta para pagar dívidas e hoje conta com apenas um funcionário e ajuda dos filhos adolescentes. Antes da crise, chegaram a operar com três unidades.

“Está todo mundo com medo de comprar. Os clientes estão economizando e até a costureira artesanal já não aparece. Nosso sonho era expandir, exportar”, lamenta.

“Há uma combinação de fatores que contribuem para a situação. O desemprego ainda é alto e as pessoas não consomem. Estamos com problemas políticos muito sérios e as incertezas produzem essas oscilações nos indicadores. Os varejistas só vão investir e os consumidores só irão comprar quando tiverem consciência de que a recuperação é consistente”, diz o professor de finanças Paulo Vieira.


Crédito
No caso da demanda por crédito, 84,9% dos pequeno e micro empresários afirmam que não pretendem buscar essa opção de financiamento nos próximos meses, aponta a pesquisa do SPC. A justificativa de 39,3% é a de que conseguem manter o negócio com recursos próprios; outros 28,3% reclamam das taxas de juros bancários.

Dono de uma loja de molduras no Prado há um ano e meio, Júlio Antônio da Silva afirma que ele e a sócia chegaram a pesquisar a possibilidade de tomarem empréstimo com um banco antes de abrirem o negócio, mas desistiram diante das dificuldades. “Preferimos não mexer, devido às altas taxas: vira bola de neve. Mas caso tivéssemos começado com um capital de giro, a situação estaria menos complicada”, diz.

Os economistas lembram que a queda da Selic em 1% trouxe novas perspectiva, mas reforçam que a taxa básica (11,25%) ainda é muito elevada.