O debate sobre as eleições está a cada dia mais presente na internet. Quem possui um perfil ou uma conta em qualquer tipo de rede social sabe que esse é o assunto mais postado e comentado na rede e, muitas vezes, a postura dos internautas pode acabar em bloqueios ou mesmo exclusão de amigos.

O advogado Murilo Rico conta que excluiu um amigo virtual após ler uma declaração que ele avaliou como desrespeitosa. “Na época em que o candidato à presidência do PSB, Eduardo Campos, morreu, e a candidata Marina Silva subiu na pesquisa, o sujeito postou em seu Facebook que a comoção da família estava sendo utilizada para atrair votos para a candidata”, conta.

A arquiteta Mariana Freire também cortou alguns contatos durante o período eleitoral e afirma que nenhuma dessas postagens é capaz de alterar seu voto. “Acho que quanto mais agressivos são os ‘posts’ que eu leio, mais repudio a atitude dos militantes adversários”, conta. Segundo Mariana, muitas das postagens são mentirosas e apresentam falsos dados e fatos. “A maioria das pessoas não sabe o que está falando”, diz

Para a funcionária pública Angélica Machado, a discussão na internet é importante e mostra como a população brasileira “acordou” para a política. “Acho que o povo brasileiro conseguiu entender a força das redes sociais depois das manifestações do ano passado, que foram organizadas através dessa ferramenta”, diz.

Mesmo tendo seu voto decidido, Angélica afirma que é capaz de fazer críticas ao seu candidato e ao partido que apoia e que, algumas vezes, consegue entender o voto contrário ao dela. No entanto, a funcionária pública não concorda com declarações de “baixo nível” e por isso também já excluiu alguns amigos de sua rede. “Na verdade não eram amigos, eram conhecidos e que sempre pensaram de forma diferente da minha. Essa faxina no meu Facebook já estava atrasada”, se diverte.

O analista internacional Diogo Machado Gonçalves afirma que sua atuação no segundo turno é intensa na internet. “Leio e posto muita coisa e também comento nos “posts” de amigos. Acredito que ainda tem muitas pessoas indecisas e acho que essa é uma forma de conquistar votos”, diz.

Diogo afirma que, quando algum amigo fala algo que ele não gosta, ele o chama no chat privado para conversar. “Acho que as redes influenciam o voto sim, e muito. As redes são mais democráticas e as informações que chegam através da mídia tradicional são reducionistas, conforme o interesse de cada veiculo”, conclui.

O gerente operacional Caio Denk prefere observar as discussões nas redes sociais de longe. Ele acredita que “tem muita besteira” e as pessoas não apontam “fontes fidedignas”. Mesmo sendo mais discreto nas interações Caio também já bloqueou conhecidos, embora reconheça que irá “voltar” com a “amizade” depois das eleições. “O cara já estava
debandando para um lado que não me apetece, agredir demais pessoas que discutiam com ele. Subestimar os outros por pensar diferente”, disse Caio.

Especialistas recomendam cuidado com a linguagem

Se por um lado a internet é um ambiente aberto em que todos podem manifestar suas posições políticas e suas críticas à pessoas e partidos, é importante que os usuários das redes sociais tenham consciência de que tudo o que é postado fica gravado na rede. É o que alerta o professor de Marketing da PUC Minas, Carlos Calic. “A rede é reflexo da vida real. Mas ali fica tudo registrado. Não digo que temos que nos policiar de tudo, mas tem que ter cuidados. Outras pessoas estão vendo”, disse.

Para a coordenadora do Observatório das Eleições da UFMG, Regina Helena Alves, a internet é um espaço que dá voz para todo mundo. “Antes as pessoas pensavam diferente mas não falavam, agora todos falam, isso tem que ficar claro, que as pessoas pensam diferente, o que é muito positivo”, afirmou.

Regina Helena reitera que o nível da discussão pode pesar a favor ou contra o candidato defendido pelo usuário das redes sociais. “A baixaria nas redes sociais não muda voto de ninguém, esse tipo de atitude é capaz de agir ao contrário, reafirmar o voto de quem se sente agredido”, disse. Por outro lado, lembra Regina, os “debates claros”, os “discursos que acrescentam” podem interferir positivamente na decisão dos eleitores.

O professor Carlos Colic também acha que a baixaria não influencia no voto dos eleitores. Ele também coloca dúvida se as discussões pautadas pela agressividade são, de fato, uma politização da sociedade. “Tenho dúvida se é uma politização, acho que as pessoas estão se indispondo pela política e isso não acrescenta. Não acho que contribui tanto para mudar o voto”, afirmou.

A coordenadora do Observatório das eleições levanta outra ponto importante das redes sociais. “Pelo motivo dos debates serem muito engessados, o telespectador não ter como participar. Ele faz isso nas redes”, avalia Regina Helena, que vai além. “Não significa o tanto de curtidas e compartilhamento que você teve, o que importa é a capacidade de criar argumento, é a capacidade de informação que você criou na rede, com argumentos de suas autorias. Isso sim pode ser válido”, conclui.