Nem mesmo os escândalos do Mensalão e do Petrolão, os protestos contra a corrupção e o governo, as seguidas quedas de popularidade da presidente e as crises política e econômica – que afetaram de forma negativa a imagem do PT – fizeram a legenda diminuir de tamanho.

Pelo contrário. O número de filiados ao Partido dos Trabalhadores é ascendente. Saltou de 1.054.671 para 1.585.021 em todo o país, o equivalente a uma variação positiva de 50,3% entre 2005 e 2015.

Em Minas, Estado governado pelo campo político do senador Aécio Neves (PSDB) nos últimos 12 anos, o partido criado em 1980 no ABC Paulista cresceu 40,7%, pulando de 127.046 filiados, em 2005, para 178.781 em junho deste ano.

Em Belo Horizonte, onde o PT historicamente tem boa penetração, o aumento foi de 44,6%, passando de 14.941 para 21.612 filiados.

Secretário estadual de organização da legenda, Luiz Mamede diz que o partido tem a tendência de crescer em tempos de crise. “Não tem uma explicação lógica, mas na época do Mensalão o partido cresceu. Temos uma militância muito aguerrida”, argumentou.

Oposição

Maior partido de oposição do país, o PSDB também teve os quadros inflados no mesmo período. Porém, com menos volúpia.

Parceiro dos petistas nos planos nacional e estadual, o exército do PMDB também anotou crescimento.

Os dados oficiais foram levantados pelo Hoje em Dia no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em âmbito nacional, desde a descoberta do esquema do Mensalão até aqui, o número de filiados do PT oscilou para baixo em apenas duas oportunidades. Mesmo assim, de maneira praticamente insignificante.

De 2005 a 2006, ainda a reboque da repercussão do pagamento de mesada a parlamentares da base do governo Lula, o primeiro escândalo que abateu o partido, o número de filiados foi de 1.054.671 para 1.047.851, uma queda de 0,65%.

De 2014 a 2015, em meio às primeiras revelações da operação “Lava Jato”, o contingente de filiados caiu de 1.586.699 para 1.585.021, perfazendo uma redução de 0,1%. Com raras exceções (veja infografia), o exército de petistas cresceu ano após ano.

PSDB e PMDB

Mesmo estando fora do poder central desde 2003, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso passou a faixa para Luiz Inácio Lula da Silva, os filiados tucanos também cresceram nacionalmente, em Minas e em Belo Horizonte. De acordo com os dados do TSE, houve um acréscimo de 24,4%, 12,9% e 24,7%, respectivamente.

Partido com maior capilaridade no país, o PMDB foi outro que registrou acréscimo de agregados nos últimos dez anos. O número de filiados subiu 15,3% no país, 14,4% em Minas e 10,6% em BH. O último candidato ao Palácio do Planalto lançado pela legenda foi Orestes Quércia.

Todos os partidos encaminham, duas vezes por ano, a relação de filiados para o TSE. O envio, feito no primeiro e no segundo semestres de cada ano, não é obrigatório. Os dados são utilizados para atualização

PSDB atribui crescimento da legenda às ações de mobilização comandadas por Aécio Neves

O PSDB atribuiu o crescimento da legenda à chegada do senador Aécio Neves ao comando nacional do partido, há dois anos. A partir daí, segundo nota da legenda, foi iniciado um trabalho de mobilização em todas as regiões do país para valorização da ação dos militantes e renovação de lideranças nos municípios e estados. Conforme o PSDB, a reaproximação com os jovens e mulheres foi estimulada pelas manifestações contra o governo federal.

“Sobretudo, com a identificação dos brasileiros com as principais bandeiras e propostas defendidas pelo PSDB na campanha presidencial do ano passado: rigor nos gastos públicos, controle da inflação, fim do uso e do aparelhamento partidário das empresas estatais, e tolerância zero com a corrupção”.

Os tucanos mineiros criticaram o PT, defenderam o legado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e anunciaram uma reunião para o próximo dia 14 de agosto, em Maceió, Alagoas, quando lançarão campanha nacional de filiação.

Desafio

“Passados 20 anos do fim da hiperinflação com o Plano Real, o desafio nacional é, de novo, retomar a confiança no país, pondo fim às crises política, econômica e ética. O PSDB deixou um importante legado para o Brasil, que, infelizmente, o PT jogou por terra”.

De acordo com o partido, pesquisas recentes mostram que o PSDB é a sigla preferida por jovens de 16 a 24 anos. “Como principal partido de oposição, o PSDB está canalizando o sentimento da sociedade brasileira, sendo o principal depositário das esperanças de milhões de pessoas atingidas pela recessão econômica e pelas consequências sociais geradas pelo desemprego e pela inflação”.

Participação tem que ser ativa e dado pode estar mascarado

O cientista político e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Paulo Roberto Figueira afirma que filiados não são necessariamente militantes. E os números podem ter sido “inflados” pelos partidos.

“Esses números de filiação estão altamente inflados em relação ao efetivo número de pessoas que participa da vida partidária de alguma maneira. Há pessoas que assinam ficha de filiação sem que isso implique identificação com o partido e nem mesmo existe a garantia de voto naquela legenda”, argumentou.

Para o especialista, uma evidência disso se dá nas filiações do PMDB. “Decorre da grande capilaridade do partido país afora, com presença em quase todos os municípios, mas isso não se traduz numa força de identificação partidária capaz de consolidar projetos de candidaturas presidenciais”, destacou.

Na avaliação do professor, outras variáveis como, por exemplo, a existência de vida partidária regular, participação em reuniões e atividades políticas, identificação e voto sistemático na legenda seriam indicadores mais precisos do que a filiação para indicar consolidação dos partidos.

Posição

Para o professor do Departamento de Ciências Políticas da UFMG Carlos Horta, a descrença com o meio político ainda não impactou no número de filiados. “As pessoas estão cada vez mais informadas e começaram a se posicionar de maneira mais contundente. E existem várias formas de se posicionar. Entre elas, ingressar em um partido político, apesar dos escândalos que vivenciamos. Escândalos esses, aliás, que não foram inventados pelo partido que está no poder”.

Procurado via assessoria, por telefone e e-mail, o presidente estadual do PMDB, Antônio Andrade, não se manifestou