A ex-primeira-dama do Rio Adriana Ancelmo foi presa preventivamente nesta terça (6), mesmo dia em que ela, o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) e outras 11 pessoas se tornaram réus por acusações apuradas na Operação Calicute. Os réus são acusados de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Dez réus estão presos desde o dia 17, quando a operação foi deflagrada. À época, o juiz Marcelo Bretas, responsável pela condução do processo, havia negado o pedido de prisão de Ancelmo. Ela fora conduzida coercitivamente para depor.

O magistrado afirmou, porém, que novos depoimentos e dados indicaram que a ex-primeira-dama "ocuparia posição central na organização criminosa capitaneada por seu marido". Por este motivo, ele atendeu o pedido de prisão da Procuradoria.

A PF foi ao apartamento do casal efetuar a prisão, mas ela se entregou na Justiça Federal. Até as 19h30, não estava definido para qual presídio seria levada. Bretas afirma, em sua decisão, haver provas de que Adriana participou da lavagem de dinheiro por meio da compra de R$ 6,5 milhões em joias entre 2007 e 2016, tudo com dinheiro vivo.

O juiz diz ainda haver provas de ocultação desses produtos. A Polícia Federal apreendeu 40 joias no dia 17, mas de acordo com dados de joalherias o casal adquiriu ao menos 189 delas desde 2000.

"Tal constatação, como afirma o MPF, permite a conclusão de que a investigada Adriana Ancelmo permanece ocultando tais valiosos ativos, criminosamente adquiridos", diz Bretas na decisão. As investigações mostraram também, segundo o juiz, que seu escritório de advocacia ajudou a ocultar propinas arrecadadas pelo grupo.

Ela não esclareceu, segundo o magistrado, depósitos milionários para o escritório feitos por empresas sob investigação. Funcionários indicaram em depoimento não reconhecer essas companhias como clientes da banca.

Também agravaram a situação da ex-primeira-dama depoimentos que mostraram seu vínculo com Luiz Carlos Bezerra, apontados como operador da propina arrecadada pelo ex-governador. Funcionários do escritório afirmaram à PF que ele levava dinheiro vivo para o local.

De acordo com os procuradores, Cabral comandou um esquema de cobrança de propina de 6% dos valores dos contratos de obras. A Procuradoria cita as obras para a urbanização em Manguinhos (PAC Favelas), construção do Arco Metropolitano e reforma do estádio do Maracanã.

O magistrado afirma que decidiu pela prisão de Adriana Ancelmo mesmo com "eventuais dificuldades que se apresentarem em relação à guarda de filhos menores da representada". O casal tem filhos de 10 e 14 anos.

Ele pondera com ironia. "A expectativa é de que a medida cautelar extrema dure pelo menor tempo possível, equiparável talvez a uma confortável viagem à Europa que Adriana Ancelmo viesse a fazer, sem seus filhos, na companhia de amigos e colaboradores", escreveu o juiz.

OUTRO LADO

Os acusados na Operação Calicute negaram em depoimento à Polícia Federal envolvimento na cobrança de propina. Os advogados de Adriana Ancelmo não conversaram com a reportagem na PF.

Em depoimento no dia 17, ela afirmou ter como comprovar todos os serviços prestados por seu escritório. Ela negou que a banca tenha sido usada para ocultar o pagamento de propina. Contudo, não quis responder a perguntas sobre seus clientes, "em razão do dever de sigilo profissional".


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