A chance de o Natal salvar economicamente o péssimo ano de 2016 é zero. As encomendas do comércio à indústria, praticamente encerradas em outubro/novembro, projetam que as vendas na principal data do ano ficarão seguramente abaixo das registradas no ano passado, que já foram bastante ruins. O Natal, ao que tudo indica, seguirá os desanimadores indicadores de desempenho setoriais da economia deste ano, entre os quais se destacam negativamente os de bens de consumo.

Desemprego, queda na renda e endividamento dos consumidores são as principais razões para o desânimo do comércio. Mas, também, a insegurança em relação ao futuro da economia. Pesquisas de intenção de consumo mostram que o brasileiro está mais disposto a quitar dívidas do que a comprar bens duráveis a prestação. E não apenas o volume de vendas deverá cair, como também o valor do ticket médio (valor médio) das compras.

Setores
As indústrias de calçados, roupas, acessórios, eletroeletrônicos e joias, que estão entre as que tradicionalmente mais aquecem o mercado no fim de ano, serão, consequentemente, as que sentirão mais fortemente a crise.

O economista Fábio Astrauskas, especialista em recuperação de empresas em crise, não enxerga qualquer perspectiva para uma surpresa positiva neste dezembro.

“A economia reagiu muito menos do que se esperava. Temos uma alta taxa de desemprego e um governo sem condição de ajudar as empresas. A consequência disso é o recuo do PIB (Produto Interno Bruto). O mercado está estagnado”, disse.

Sem compradores, um dos setores que mais sofrerá neste Natal é o de fabricação de joias, bijuterias e relógios. Em 2015, cerca de 60 estabelecimentos já tinham sido fechados no Estado, o que representou queda de 10% na produção do setor. Neste ano, é esperada nova retração de 20%.

“Muitas outras indústrias fecharam as portas neste ano e não vejo alento para 2017 sem uma profunda reforma tributária”, diz Raymundo Vianna, vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Joalheria (Sindijoias-MG).

A situação não é diferente na indústria têxtil. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, o setor de vestuário teve queda de 4,2% em setembro deste ano na comparação com o mesmo mês no ano passado. É naquele mês que se fecha a maior parte das encomendas do varejo para o Natal.

“Neste ano, a indústria foi ainda pior que do que em 2015. Tivemos queda nas vendas e cortes de funcionários”, diz Jânio Gomes, presidente Câmara da Indústria de Vestuário e Acessórios da Fiemg.

CDL sugere diferencial no atendimento para fisgar clientes
Com a previsão de queda nas vendas deste ano, os lojistas da capital mineira já apostam em um Natal com resultados inferiores a 2015. Segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), o comércio deve registrar retração de 1,1% comparado ao ano passado. Mas trata-se de uma projeção otimista frente às pesquisas de desempenho de vendas deste ano.

“A instabilidade ainda é grande. As pessoas que têm dinheiro não gastam esperando a economia melhorar. O comerciante tem que apostar no bom atendimento para ter um diferencial e incrementar as vendas de Natal”, avalia Bruno Falci, presidente da CDL-BH.

As Casas Bahia e o Ponto Frio apostam neste Natal nas vendas de smartphones, televisores e eletrodomésticos. O Centro de Distribuição da Via Varejo, administradora das marcas, localizado em Contagem, está preparado para entregar 10 mil pedidos por dia.

Já na Ricardo Eletro, o investimento neste ano para aquecer as vendas será nos smartphones. A empresa adiantou que terá produtos com opções de pagamento em até 14 vezes sem juros e parcelas mais baixas para estimular o consumo.

Varejo
Segundo dados do varejo apurados pela Boa Vista SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), o movimento no comércio caiu 6,6% em outubro comparado ao mesmo mês em 2015. Já na avaliação dos últimos 12 meses, o indicador apresentou retração de 5,3%. 

“Se formos avaliar, o comércio como um todo deve ter mais recuos nas vendas”, avaliou Flávio Calife, economista do Boa Vista SCPC.

Grande parte do 13º salário será usada para quitar dívidas
Neste ano, cerca de R$ 16,61 bilhões devem ser injetados na economia de Minas Gerais com o pagamento do 13º salário. No entanto, boa parte desse dinheiro não deve circular no comércio. Segundo levantamento da Fecomércio de Minas, 39,3% dos mineiros vão usar o salário extra para pagar dívidas. O levantamento mostra ainda que apenas 36,4% dos entrevistados devem ir às compras.

Com o agravamento da crise econômica, muitas empresas também podem atrasar o pagamento do 13º salário, o que dificulta ainda mais a injeção de recursos na economia.

“Como as indústrias não estão conseguindo melhorar seus quadros, muitas podem atrasar o pagamento do 13º ou até pagá-lo em janeiro ou fevereiro. Esse dinheiro picado diminui ainda mais o volume de compras”, avalia Fábio Fábio Astrauskas, especialista em recuperação de empresas em crise.

Segundo levantamento do Boa Vista SCPC, dos 74% dos consumidores que irão receber o 13º salário, 56% responderam que vão aproveitar o dinheiro para quitar dívidas. Esse percentual é maior entre os consumidores das classes D e E (66%) e C (48%). Na região Sudeste, 55% dos consumidores quitarão suas dívidas.

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