Sabe aquela vodca vagabunda servida nas noitadas mundo afora? Dá uma ressaca danada! Cabeça doendo, secura na boca e outros sintomas que perduram por um bom tempo. Pois é, “bebida batizada” também é um problema para o motor do carro. E tudo indica que muita gente terá dores de cabeça maiores em breve como efeito colateral da escassez de combustíveis que acometeu o país.

Com o desabastecimento dos postos, teve motorista que correu para qualquer lugar onde houvesse gasolina ou álcool, sem se importar com a procedência do estoque, o preço do litro e muito menos com o que estava sendo bombeado para o tanque. O que importava era sair abastecido, como se o apocalipse zumbi fosse iminente.

Durante a greve dos caminhoneiros, não faltaram vídeos e denúncias de venda de combustíveis adulterados. Imagens como garrafas com líquidos de colorações diferentes pipocaram nas redes sociais.

A explicação é que gasolina e água não se misturam. E por ser mais densa que a gasolina, a água fica por baixo do derivado do petróleo, o que torna fácil a identificação da picaretagem.

No entanto, quando se trata de álcool, é mais difícil de se perceber, pois ele se mistura à água e as alterações geralmente se dão pela mudança de coloração, que nem sempre é percebida pelo consumidor. 

Gororoba
Daí, parte dessa “água” que aparece no fundo das garrafas e galões com gasolina muitas vezes é álcool hidratado que foi adicionado em excesso. Esse tipo de álcool – que, como o nome explica, leva água na composição – é vendido nas bombas. 

No entanto, o percentual deve ficar entre 6% e 7%. Vale lembrar que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) permite que o litro da gasolina receba até 27% de álcool, mas trata-se do álcool anidro, sem a presença de água.

Acontece que, na hora da trambicagem para aumentar o volume no reservatório, água é adicionada ao álcool, que depois é adicionado à gasolina, transformando o combustível numa mistura que pode prejudicar o funcionamento do automóvel. 

Assim, aquele empresário inescrupuloso vende essa gororoba como se fosse gasolina, com preço do litro muito superior ao que venderia como etanol. 

Mas pode ficar pior, pois ainda há aqueles que adicionam solventes à gasolina para aumentar o volume, o que também pode gerar sérios problemas ao motor, devido ao alto poder de corrosão desses produtos.

Sintomas
Descobrir que o automóvel está rodando com combustível adulterado não é difícil. Perda de potência, consumo excessivo, falhas, dificuldade de dar a partida são sintomas de que há “água no chope”. 

O ideal é remover esse combustível e reabastecer o automóvel num posto de confiança, onde haja selo do Inmetro nas bombas. Também não deixe de exigir o cupom fiscal. Ele é o comprovante da compra do combustível no estabelecimento.

Mesmo assim, não se deve generalizar dizendo que todo combustível vendido durante a greve dos caminhoneiros esteja adulterado. Mas, infelizmente, há quem lance mão deste artifício para elevar o faturamento. Assim, vale lembrar que o posto deverá fazer o teste de qualidade do combustível quando pedido pelo consumidor. 

Todo estabelecimento deve oferecer um kit para testes, de acordo com as normas da ANP, para verificar a qualidade e a quantidade de combustível bombeado. Caso note irregularidades, denuncie o posto à ANP pelo telefone 0800 970 0267. Na agência é possível conferir a relação de postos que já foram autuados por adulteração de combustíveis.

Danos
Combustíveis adulterados e de baixa qualidade comprometem os componentes do sistema de alimentação e escape do automóvel. Bomba, filtro, bico injetor, velas e até mesmo válvulas, cabeçote, pistões, anéis e cilindros penam com a queima de combustível adulterado.

Os itens que sofrem desgaste mais acelerado são velas e filtros. As velas tendem a oxidar nos contatos que geram a faísca que detona a mistura ar/combustível. O resultado são falhas, dificuldade para dar partida, perda de potência e aumento do consumo, uma vez que o motorista, instintivamente, irá pisar mais fundo no acelerador e consequentemente injetará mais combustível. Um jogo de velas pode variar de R$ 50 a R$ 400, de acordo com a especificação.

O excesso de água na mistura tende a dificultar a queima. E o combustível não queimado é expelido pelo escapamento, tende a ficar retido no catalizador, se queimará posteriormente e danificará a colmeia. Um catalizador novo custa em média R$ 500.

O combustível adulterado também compromete a eficiência do filtro, que se torna incapaz de bloquear as impurezas que podem parar nos bicos injetores.

Nesse período de falta de combustível, praticamente todo os postos esgotaram os tanques e muitos resíduos que se acumulam no fundo dos reservatórios acabaram sendo bombeados para o tanque dos carros. E se o filtro não estiver em boas condições, o risco de impurezas obstruírem a bomba de combustível e os bicos injetores é grande.

Bico doce
Vale lembrar que o bico injetor, quando obstruído, não permite limpeza. Muitas oficinas até vendem o serviço, o que é uma farsa. 

O bico injetor é uma peça blindada que trabalha com um nível de pressão tão elevado que o torna autolimpante. Além disso, o próprio combustível atua como “fluido” de limpeza. Ou seja, se deixar de funcionar, é preciso trocá-lo. Os preços variam de R$ 200 a R$ 1.500, dependendo do modelo.