A implementação do sistema de estacionamento rotativo digital, em substituição aos talões de papel, vai afetar o faturamento de pelo menos 60% das tradicionais bancas de jornais e revistas da capital mineira, segundo estimativa do Sindicato dos Vendedores de Jornais e Revistas do Estado de Minas Gerais (Sinvejor-MG). Para um setor que vive de pequenas porcentagens sobre produtos variados, a principal dificuldade dos comerciantes é reinventar o próprio negócio.

Previsto para entrar em funcionamento a partir do mês que vem, mas já em fase de testes entre motoristas e comerciantes, o Faixa Azul Digital (FAD) continuará sendo vendido nas bancas, inicialmente junto com os estoques de talões de papel, até que os créditos físicos se esgotem e a Empresa de Transporte e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) estabeleça apenas a venda digital do rotativo –período que pode durar até três meses. 

Desde a semana passada os permissionários e prepostos de bancas têm sido treinados a usar o aplicativo em smartphones para efetuar as vendas, segundo o presidente do Sinvejor, Zenóbio Carvalho. 
“Primeiro, vamos vender pelo smartphone para quem não tiver o aplicativo instalado, depois, teremos uma máquina na banca para a venda. É uma evolução, claro, somos a favor, mas vai afetar o trabalho das bancas de imediato”, admite Zenóbio.

Das 760 bancas da cidade, estima-se que 400 delas, concentradas nos bairros, principalmente os de fácil acesso ao centro, percam até 20% em faturamento, segundo o advogado do Sinvejor, Albert José Patrocínio. 

“Muitas bancas têm como carro chefe os talões de rotativo. Agora, as vendas vão diminuir quando o digital estiver implementado porque apenas quem não souber ou puder lidar com o celular vai recorrer às bancas”, avalia Albert.

EM QUEDA
A principal preocupação dos permissionários de bancas é perder as vendas abruptamente, quando o FAD entrar em operação. Hoje, cada talão com dez folhas é vendido a R$ 44, sendo que os comerciantes ganham 10% sobre cada venda, ou seja, R$ 4 por talão, considerando que a compra mínima permitida pela BHTrans é de cinco talões.


Mesmo com a porcentagem baixa de lucro, o estacionamento rotativo garantia pelo menos 40% da renda média de R$ 800 brutos que Alexandre Abraão fatura com sua banca, situada na avenida do Contorno, próximo ao Hospital Mater Dei.

Com a mudança, ele avalia que não será possível manter o negócio iniciado há duas décadas e que chegou a render R$ 4 mil mensais. “Acredito que, enquanto a venda do talão físico conviver com o rotativo digital, será possível sobreviver. Mas, meus clientes compram de um a dois talões por semana, e é exatamente o público que vai migrar para o aplicativo. Quem vai recorrer ao talão é apenas uma pessoa de fora da cidade ou quem ainda não souber da mudança”, avalia Alexandre.

Com o mesmo receio, nesta semana o jornaleiro Luiz Praes, que há 18 anos mantém banca no Prado, deixou de comprar a média de 25 talões adquiridos a cada 15 dias. “Fiquei com o pé atrás porque acho que a maioria das pessoas vai mudar rapidamente para o digital. Aí, é um prejuízo de faturamento de até R$ 200 por mês que eu tiro com o talão de papel. Minha crítica maior é haver uma mudança, sem que haja um debate, inclusive sobre o que as bancas podem ou não vender. Aí, tiram o rotativo da gente, e não apresentam outra solução. Muitas bancas não aguentam assim”.