“É preciso acabar com a extorsão dos flanelinhas e melhorar o uso do código de posturas da capital”. É com o discurso da segurança como prioridade que o deputado estadual e candidato do PDT à Prefeitura de Belo Horizonte Sargento Rodrigues busca conquistar o eleitorado. Hoje em Dia inicia hoje uma série de entrevistas com todos os candidatos a prefeito de Belo Horizonte, que serão publicadas no Página Dois às segundas e quintas-feiras.

O tema da segurança pública aparece muito em suas falas, mas ela é uma atribuição prioritária do governo estadual. Não é vender uma falsa ilusão para o eleitor prometer que a prefeitura pode solucionar a questão?
O prefeito pode fazer muito mais em segurança pública. Cerca de 90% dos prefeitos desconhecem a matéria. Há duas formas claras de se atuar em segurança. Nós vamos atuar no campo da prevenção social. As políticas públicas, se bem atreladas, fazem a diferença. O nosso compromisso é a revolução das políticas sociais nas comunidades mais carentes.

E qual a outra forma de lidar com o problema?
Para combater e reprimir crimes, a gente conta com a Guarda Municipal, BHTrans, Vigilância Sanitária e Código de Posturas. Um exemplo do que é o Código de Posturas bem utilizado é Diadema (SP). Lá os índices de homicídios estavam elevados e o prefeito regulamentou um artigo proibindo a venda de bebida alcoólica a partir das 22h. Despencaram os índices de homicídio em Diadema. Quando o prefeito sabe, ele é aliado na prevenção e na repressão qualificada.
 

Sargento Rodrigues


Mas você quer proibir a venda de bebidas em Belo Horizonte?
Não, eu dei um exemplo. Mas eu dou outro, de BH. A proibição da venda de churrasquinho no entorno do Mineirão, que é uma coisa do Código de Posturas, funcionou. E se você tem uma área que tem prostíbulo e caça-níquel, você tem contravenção com prostituição, tem tráfico. Se o prefeito chega com Vigilância Sanitária e regulação urbana e fala “não tem”, fiscaliza-se, fecha-se a porta, você atuou em segurança pública. Quando eu falo que as pessoas não vão continuar a realizar extorsão, como os flanelinhas, eu posso atuar com a Guarda Municipal e com a BHTrans.

O que o motiva a tentar a Prefeitura de Belo Horizonte?
Cheguei num momento de maturidade na vida política, no quinto mandato consecutivo como deputado estadual, acompanhei outras campanhas a prefeito, vereador. Além disso, minha experiência como morador de periferia, até os 34 anos, dá a dimensão exata do que é ser morador da região mais pobre da cidade. Também passei 15 anos na Polícia Militar, sendo 11 anos na rua, muito próximo da realidade das pessoas. E tem a experiência do parlamento, para mostrar que é possível fazer política de mãos limpas.

O fato de não ter exercido atividade como gestor não é um problema?
Na vida pública, não. Não há obstáculo na medida em que você é certo, transparente e que seu único interesse no exercício do mandato seja a coisa pública e a coletividade. O segundo ponto é que se você tem experiência no setor privado e vai levá-lo para a administração pública, a coisa não funciona igual. Há todo um norteador diferenciado. Para realizar obra, por exemplo, é preciso licitação. E, no caso municipal, você não pode ignorar a Câmara de Vereadores. Ter uma relação republicana, transparente com o legislativo é fundamental para se governar. Temos exemplos recentes de que as coisas não andam para aqueles que não têm um relacionamento transparente e propositivo com o legislativo.

Falando na Câmara, dado o quadro pulverizado de partidos, como assegurar a maioria na Casa?
Não há nada que impeça o prefeito de canalizar a reivindicação feita pelo vereador, que, por sua vez, está canalizando aquela feita pela comunidade. Muitas vezes, o que atrapalha a relação do chefe do executivo municipal com os vereadores é a intransigência, a incapacidade de diálogo. Minha experiência de legislador vai me ajudar, e muito, a ter esse diálogo, essa relação propositiva com os vereadores. E respeitar a Casa: é na Câmara que é votado o orçamento, o plano diretor.

E como fazer esse diálogo sem que haja loteamento de cargos e compra de adesão?
Olha, você não governa sozinho. Eu tenho do meu lado o PDT e o PTB. Vamos fazer uma coalização de partidos. É natural que o partido que venha ajudar a governar faça indicação de cargos. A nossa preocupação é que ocupem cargos com indicação partidária aqueles que tenham currículo e correspondam àquilo que o cidadão deseja dos cargos colocados.

Há previsão de queda no orçamento municipal em 2017, em relação a este ano (de cerca de R$ 12 bi para cerca de R$ 10 bi). Como, em médio prazo, conseguir reverter a queda de arrecadação e garantir a manutenção dos investimentos?
Pelo que consta, há equilíbrio de receita e despesa. Tanto que a folha de pagamento e os pagamentos estão em dia. Existem dívidas, mas elas estão sendo pagas. Mas o que fazer? Belo Horizonte tem potencial. Algo que está brotando e temos são as startups, empresas de base tecnológica. BH tem se colocado como um polo nessa área. Além disso, temos vocação na prestação de serviços, inclusive como rota de turismo, e empreendedores da área de eventos. Temos que potencializar essas áreas. Outra questão é a burocracia. Em Santiago, no Chile, abre-se uma empresa com cinco dias e meio. Aqui, leva-se 45 dias. E vamos reavaliar a questão tributária, para atrair o empreendedor.

Vários problemas da cidade, como os de transporte, saúde e habitação, são compartilhados com outros municípios da região metropolitana. Como pensar uma estratégia de governança e articulação metropolitana?
O prefeito de BH, por sua força política, tem que ser o indutor, liderar esse processo. Na área da saúde, por exemplo, os municípios do interior do Estado adotam os consórcios municipais. A saúde é um dos graves problemas de Belo Horizonte, e não tem fronteira entre um município e outro. Não há uma legislação que determine que o morador de Sabará tenha que ser atendido lá e não possa ser atendido em Belo Horizonte. Tem a questão dos consórcios como saída. O consórcio é compartilhar os problemas e soluções, mostrar onde estão os problemas e tenta resolver conjuntamente. Essa é uma questão que pode ser resolvida com Sabará, Nova Lima, Ribeirão das Neves, Betim, Contagem... E o prefeito de BH deve liderar, trocar experiências com os vizinhos.

Falando em saúde, como o senhor vê a área?
As unidades de pronto-atendimento estão apenas repassando para o hospital, não estão fazendo o seu verdadeiro papel. É preciso que médicos, enfermeiros e técnicos que fazem o primeiro atendimento deem diagnósticos melhores e ofereçam mais soluções na ponta da linha. Não simplesmente repassem problemas para o atendimento mais complexo.

Um dos principais gargalos da cidade é o transporte público. O que fazer, a médio prazo, para diminuir o problema?
O problema de mobilidade não é só o metrô. Mas o máximo que BH tem é o recurso para fazer o projeto, e o projeto já existe. O governo federal nos abandonou enquanto outras grandes capitais foram contempladas. E a bancada federal mineira de deputados e senadores precisa ser trazida para dentro do processo. Entendo que o atual prefeito falhou nesse aspecto. E o que pode ajudar são parcerias público-privadas.

E enquanto o metrô não chega?
Experiências em outras cidades apontam que quanto mais se alargam as vias, mais se convida para a utilização de veículos. É preciso discutir novas práticas culturais. Você pode utilizar, como tem sido feito em outros países, a bicicleta para percorrer certos percursos. E é preciso pensar em alternativas ao metrô. Podemos pensar, por exemplo, um monotrilho da praça Afonso Arinos ao BH Shopping. Você não pode resolver o problema de mobilidade com uma única saída.
 

Sargento Rodrigues


E como resolver o problema da habitação?
É um grave problema. Temos o programa “Minha Casa, Minha Vida” que vinha disponibilizando moradias para pessoas de baixa renda. Tenho a proposta de criar cooperativas, organizando essas pessoas para adquirir as moradias, no o programa “Minha Casa, Minha Vida”, e outras formas. Há um déficit de reassentamento em BH de 20 mil unidades. Temos também a proposta de vinculação de um percentual, para que independentemente das verbas que cheguem do governo federal ou do Estado, tenhamos um percentual para o fundo habitacional do município. Teremos, ao longo de quatro anos, a construção de moradias populares, independente da chegada de verbas federais ou estaduais.