Se perguntassem a Keith Richards para que serviriam aqueles três acordes sustentando uma canção que repetia selvagemente "I can't get no, satisfatcion", ele certamente daria de ombros antes de voltar a dormir. Até porque foi dormindo em um quarto de hotel que, há 50 anos, o guitarrista dos Rolling Stones recebeu do inconsciente, ou dos deuses, seu riff de guitarra mais conhecido. Ele acordou com a ideia na cabeça, ligou o gravador, registrou a frase de guitarra de três notas, balbuciou alguma melodia e voltou a dormir.

Quando escreveu suas memórias em 2012, na autobiografia Life, revelou como veio a canção: "O milagre foi que olhei o gravador naquela manhã e sabia que havia colocado uma fita virgem na noite anterior, e vi que estava no final. Então, apertei o botão do retrocesso e lá estava Satisfaction".

Keith não apostaria muitas fichas em sua criação, nem depois que ela ganhasse letra de Mick Jagger. Sabia que era um rock de não se jogar pela janela, mas imaginou seu riff sendo tocado, na verdade, por uma sessão de metais. Trompete, sax e trombone, como um legítimo soul. A música saiu primeiro em um compacto simples e não ganhou o mundo imediatamente, já que muitas rádios se recusaram a executar a letra de tantas sugestões pecaminosas. Os próprios Stones demoraram a descobrir o modo de tocar aquilo com vigor, como também conta Keith em suas memórias. Até que Otis Redding foi lá e mostrou a Keith como fazer, usando os metais com os quais o Stone havia sonhado. "Se um dos meus heróis fez aquilo, era sinal de que eu poderia". Mesmo sem os metais, a música entrou para sempre no repertório da banda.

Mick Jagger queimaria sua grande língua ao responder aos repórteres, antes de completar 35 anos de idade: Chegaria ele aos 50 cantando Satisfaction? "Eu prefiro morrer." Aos 71 anos, não há show que faça sem ela. A criatura regravada por três gerações e interpretada há cinco décadas ficou maior do que seus próprios criadores.

Escute o clássico dos Rolling Stones:

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