Automóveis elétricos têm ganhado força na indústria automotiva. E não é uma mera moda de consumidores antenados com o futuro do planeta. Trata-se de uma tendência irreversível, em que se busca a consolidação da base tecnoló-gica e da economia de escala de sistemas de propulsão que não dependam da queima de combustíveis fósseis ou de origem vegetal, como o milho e a cana. Mas esqueça aquela visão de carrinhos de silhueta tímida e pouco arrojada ou os supercarros dos filmes de ficção. A indústria tem manobrado para combinar os motores elétricos aos populares utilitários-esportivos (SUVs) que se tornaram uma febre global. E a onda já está perto da arrebentação.

Fabricantes europeus e asiáticos têm apresentado versões híbridas de jipões para atender ao endurecimento das normas ambientais naqueles mercados. 

Modelos como Porsche Cayenne, Audi Q7, BMW X5, Mitsubishi Outlander, Lexus NX, Toyota Highlander, Toyota RAV4, Kia Niro, Nissan Rogue e Volvo XC90 já contam com versões que combinam motores elétricos com a unidades a combustão. 

No entanto, os híbridos nunca se mostraram uma solução definitiva, e sim um quebra-galho. Ainda mais que diversos mercados europeus já anunciaram que irão abolir os motores a combustão a partir de 2030. Para se ter uma ideia, a Agência Internacional de Energia (AIE) aponta que a demanda por modelos totalmente elétricos é quase o dobro das vendas de híbridos.

Darwinismo
Os utilitários são o segmento de maior demanda no mercado global. Tanto que dos 25 modelos mais vendidos no mundo em 2017, segundo a Jato Dynamics, nove eram SUVs. 

Além disso, eles estão tomando o lugar dos sedãs de médio e grande porte. Tanto que a Ford decidiu que irá focar a estratégia nos Estados Unidos em SUVs e picapes. Assim, modelos como Fusion, Taurus e Focus Sedan não terão sucessores por lá.

Há 10 anos o utilitários-esportivos representavam 29% dos emplacamentos no mercado norte-americano, enquanto os sedãs correspondiam a 39% do mercado e as picapes a 13%, como aponta o artigo de Eric D. Lawrence, publicado no Chicago Tribune, na semana passada. Hoje, jipinhos e jipões preenchem 43% do mercado dos EUA, e os sedãs despencaram para 29%.

Diante desse cenário, a tendência é colocar no mercado, num futuro próximo, jipões totalmente elétricos. Uma das razões para escolher os SUVs se deve a uma seleção natural do mercado. Afinal, se o apreço pelo sedã tem diminuído, não há razão para gastar dinheiro nesse segmento.

E o terceiro fator é o valor agregado. Automóveis elétricos ainda são muito caros. Eles utilizam componentes sofisticados e de menor escala que os carros equipados com motor a combustão. 

Basta notar que compactos elétricos representam um pequeno percentual no mix de vendas da linha. O próprio Golf, que é o hatch mais vendido do mundo, conta com uma versão elétrica em sua linha, o e-Golf, que representa apenas 5% das vendas. Em janeiro, foram vendidas 2 mil unidades elétricas contra 40 mil a combustão na Europa.

Daí, incorporar novas tecnologias em modelos de tíquete mais elevado permite uma escalada de produção mais harmoniosa do que tentar convencer o consumidor a pagar por um compacto elétrico, em que o custo da tecnologia encarece demais o preço final do automóvel. Para se ter uma ideia, o Golf parte de 25 mil euros em Portugal, enquanto o e-Golf não sai por menos de 40 mil.

Chineses
O mercado chinês desponta como o maior comprador de elétricos da atualidade. E as razões são óbvias. Com vendas domésticas na ordem de 25 milhões de unidades ao ano, a China se tornou um bolha de monóxido de carbono, tanto que dos 1,2 milhão de veículos híbridos e elétricos comercializados ao redor do globo em 2017, cerca de 50% foram para as garagens chinesas.

E como tudo na indústria se decide pelo custo de produção, vender jipões elétricos a partir do mercado chinês é o caminho mais curto para se obter economia de escala e tornar as implementações viáveis em outros mercados.

Uma mostra disso é que no Salão de Pequim não faltaram conceitos de jipões de luxo equipados com sistemas de propulsão elétricas. A BMW, por exemplo, apresentou o iX3. 

A variante elétrica de seu SUV médio foi mostrada como conceito, mas é praticamente o modelo final. Ela conta com motor que oferece potência equivalente a 270 cv e baterias de 70 kWh que garantem autonomia de 400 quilômetros. Já a Mercedes-Benz chamou atenção com o extravagante Vision Maybach Ultimate Luxury Concept, uma espécie de mistura de jipão com limusine dotada de quatro motores elétricos.

Engenharia
Outro fator que se torna argumento forte nas pranchetas dos projetistas e nas planilhas dos executivos é de ordem estrutural. Os automóveis elétricos têm um agravante que é a acomodação das baterias que pesam muito e ocupam espaço. Por outro lado, os utilitários nunca foram sinônimo de estabilidade. Assim o acoplamento de baterias nos assoalhos dos jipões permite a instalação de uma área maior de pilhas do que nos compactos e também ajudam a empurrar o centro de gravidade dos SUVs para baixo. 

Por fim, conjuntos elétricos com motores independentes para cada roda também eliminarão componentes com eixo cardã, diferenciais (dianteiro, central e traseiros), assim como a caixa reduzida, fundamentais num 4x4.