Técnicos e analistas do IBGE argumentam que a deflação de -0,23% registrada em junho foi motivada, basicamente, por três fatores. Recuo nos chamados preços administrados (impostos, combustíveis, energia, etc), principalmente as tarifas de energia elétrica. Somente este item respondeu por -0,2 ponto percentual do resultado.

Em seguida, segundo o IBGE, foi a queda nos itens de alimentação e bebidas. Para o IBGE, a agricultura segue com altos índices de produção com safras recordes, o que leva à queda nos preços de verduras e legumes. Oficialmente, a queda de alimentos teve como um dos personagens o tomate, que recuou 19,2% após ter alta de mais 120% entre os anos de 2012 e 2013. 

No entanto, a recessão e a queda no consumo das famílias – resultado do desemprego que bate na casa dos 14% – também costumam jogar preços para baixo. Levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas mostra que o corte maior no orçamento doméstico foi no quesito “alimentação fora de casa”. Pelo menos foi a resposta de seis em cada dez entrevistados. 

Fator comprovado estatisticamente em Belo Horizonte, já que pesquisa do Ipead apontou que o item “bebida em bares e restaurantes” mostrou um recuo de 2,96% em junho quando comparado com o mês anterior. 

O economista e professora Cláudio Gontijo explica que quando a queda de preços chega ao comércio varejista e à prestação de serviços, a indústria já reduziu muito seus preços. “A própria CNI (Confederação Nacional da Indústria) não esconde a preocupação com esta queda na produção industrial”, afirma Gontijo.

História

Cláudio Gontijo também chama a atenção para o fato de não termos convivido com a deflação na história do Brasil. “Pelo contrário”, diz. “Sofremos muito com os períodos da hiperinflação”, completa. 

De fato, de acordo com os registros oficiais, o Brasil vivenciou um período de deflação por no máximo três meses consecutivos. Foi entre julho e setembro de 1988, época de grandes quebradeiras mundiais e queda no valor das commodities (matérias-primas). 

Além disso:

Um dos mais daninhos e perversos efeitos da deflação é que com a expectativa de mais queda nos preços, investidores ficam mais ressabiados e adiam planos de novos negócios. Isso leva a economia a mais estagnação, alimentando a recessão. Com este consumo em queda, menos o comércio vai vender, o que vai acirrar uma concorrência por preços. Como alguém vai ter de ofertar o produto (ou serviço) por valores que não cobrem o custo, o resultado costuma ser desastroso: demissões, falência, quebradeira.

Devedores de longo prazo também estão entre aquelas que vão acumular perdas e amargar prejuízos. Se os preços caírem muito, quem financiou imóvel por 20 anos, por exemplo, corre o risco de pagar muito mais do que vale o bem financiado. 

Num cenário de deflação, bancos tendem a emprestar menos, com medo de eventuais calotes. E a dificuldade na obtenção de crédito também desemboca no recuo do consumo, alimentando a fogueira da recessão. Também pode haver comprometimento em investimentos em melhoria de produtividade e em novas tecnologias. Ou seja, o futuro pode ficar ameaçado.

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