As drogas têm efeito devastador sobre emprego e ensino no Brasil. Todos os anos, o uso frequente de substâncias ilícitas exclui do mercado de trabalho, por doença, milhares de pessoas, e impede que outro contingente imensurável conclua os estudos. Somente de janeiro a novembro de 2016, 32,4 mil usuários foram afastados do trabalho devido ao uso desenfreado de drogas como cocaína e crack, segundo dados do Ministério da Previdência e do Trabalho. Os resultados são sonhos interrompidos, drástica redução da renda e rombo milionário nos cofres públicos. 

É inegável que o quadro, sob essa ótica, seja péssimo. No entanto, não deve ser agravado em caso de legalização do uso e venda especificamente da maconha, em discussão no Congresso, segundo estudo da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. O motivo é simples. A cannabis não tem reflexos significativos no número de pessoas que deixam o emprego. No Brasil, álcool, associação de drogas múltiplas e a cocaína lideram os afastamentos e aposentadorias. 

Por outro lado, a indústria agrícola criada para o cultivo da erva seria capaz de gerar milhares de empregos no país, ainda conforme o estudo da Consultoria Legislativa. É o que mostra esta segunda reportagem da série Drogas S.A. 

Das 32,4 mil pessoas que saíram do mercado de trabalho devido ao uso excessivo de drogas nos primeiro 11 meses do ano passado, 31.594 recebem auxílio-doença. Em uma conta rasa, em que o salário mínimo de R$ 937 foi considerado, elas custam ao governo quase R$ 30 milhões por mês. O gasto possivelmente é maior. Afinal, o benefício é pago de acordo com o salário do trabalhador quando ele é afastado.

Embora em menor número, as aposentadorias por invalidez em decorrência do uso de drogas também foram significativas. Nos primeiros 11 meses do ano passado, 793 benefícios foram concedidos. Usando o salário mínimo como base, estes aposentados custam ao governo, pelo menos, R$ 8,2 milhões ao ano. 

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Linha tênue

Algumas drogas possuem ligações mais estreitas com profissões específicas, conforme afirma o coordenador de Saúde Mental da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), Arnor Trindade. “Normalmente, as pessoas usam drogas no trabalho para superar condições ruins. Profissionais que têm longas jornadas costumam usar estimulantes para ficar acordados”, exemplifica. Há, ainda, aqueles que têm fácil acesso às substâncias, como os profissionais de saúde. O problema é que, uma hora ou outra, o uso frequente cobra o seu preço.

Como exemplo, o coordenador de Saúde Mental cita motoristas dependentes de cocaína ou “rebite”. Durante o tratamento para deixar a dependência, que costuma ser longo, eles precisam usar remédios controlados e são proibidos de dirigir. “Aqui, nós temos dois problemas graves. A pessoa sofre porque precisa procurar outro trabalho e sofre porque a renda cai. Muitos aposentam porque não conseguem uma realocação funcional”, diz o especialista. 

Exclusão

O olhar preconceituoso da sociedade para o dependente, o estigma e a depressão também costumam afastar do trabalho o usuário que está em tratamento. “Se a pessoa quer entrar e permanecer no mercado, o uso de drogas está totalmente contraindicado. Existe, por exemplo, a possibilidade de um usuário de crack trabalhar? Não. Não existe consumo moderado de crack”, alerta o coordenador do Programa de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria (IPQ) da Universidade de São Paulo (USP), Arthur Guerra de Andrade. 

Mais empregos

Embora o uso e a venda da maconha sejam proibidos no país, os brasileiros gastam R$ 5,7 bilhões com a droga todos os anos. No entanto, apenas 20% da erva é plantada em solo nacional. Ou seja, o consumo é, basicamente, suprido pelo narcotráfico internacional. 

Segundo o levantamento da Consultoria Legislativa, no entanto, o Brasil possui potencial produtivo e disponibilidade de áreas agricultáveis para suprir internamente o consumo da cannabis. Entre as regiões mais favoráveis ao plantio e ao cultivo da planta estão o sertão nordestino, que carece de atenção do poder público. A criação da nova atividade tem potencial para inserir milhares de pessoas no mercado de trabalho e, mais do que isso, desenvolver a região.

No 9º ano, 60% dos jovens experimentam bebida alcoólica

Aos 46 anos, Ângelo Azeredo Coutinho conhece de perto os efeitos e conse-quências do uso intenso de drogas. Ele, que fumou maconha pela primeira vez aos 11 anos e cheirou cocaína aos 12, ficou afastado do mercado de trabalho e dos estudos há até pouco tempo, quando deu uma guinada de 180 graus na vida. Hoje reabilitado, Coutinho trabalha e concluiu o segundo grau, mas entrou para as estatísticas. 

Ele faz parte dos 9% das pessoas que usaram drogas pela primeira vez até o 9º ano, normalmente adolescentes de 14 anos, conforme levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Como os efeitos das drogas são nocivos, como dificuldade de concentração e assimilação de conteúdo, a evasão escolar tende a aumentar entre os usuários frequentes. 

“Quando você depende de alguma coisa, você vive em função dela. Você precisa dela 24 horas por dia. Não é possível trabalhar, ou estudar. Eu até pensava em sair daquela vida, mas achava muito difícil. Hoje sei que não é impossível”, afirma Coutinho, que trabalha com Redutor de Danos na Prefeitura de Belo Horizonte e em outros projetos sociais, ajudando aqueles que viveram em situações que ele conhece bem.

Nas ruas, onde o Redutor de Danos chegou a morar durante 10 anos, ele usou os mais diversos tipos de drogas. Nas escolas, conforme o documento elaborado pelo IBGE, a realidade não é diferente. No 9º ano, quase 60% dos adolescentes já experimentaram bebidas alcoólicas e 21,4% se embriagaram pelo menos uma vez na vida. O uso de drogas ilícitas também chama a atenção.

Conforme o documento, 4,2% dos alunos usaram alguma substância proibida 30 dias antes da pesquisa, indicando a frequência. O consumo da maconha pelo menos 30 dias antes foi feito por 4,1% dos entrevistados. O crack foi utilizado no intervalo de um mês antes do questionário por 0,5% dos estudantes. Isso significa que em um grupo de 200 alunos, um fuma a mais devastadora das drogas. 

Escolas públicas e privadas pouco se diferem quando o assunto é uso de drogas. Segundo o levantamento, 9,3% dos alunos de escolas públicas e 6,8% dos estudantes de colégios particulares já experimentaram entorpecentes até o 9º ano. 

“O uso de drogas por jovens tem prejuízos para a escolarização porque elas geram déficit de atenção e dificuldade de aprendizagem. As chances deles completarem o ensino médio, acessarem a universidade e serem competitivos no mercado de trabalho na vida adulta são reduzidas”, afirma o coordenador do Centro de Referência em Drogas da Universidade Federal de Minas Gerais, Frederico Garcia.