Mais que uma jornada sentimental que refaz a odisseia do pai poeta, a viagem do artista chinês Ai Weiwei pela América do Sul reata os laços de sua família com o Brasil. Isso porque Ai Qing, o pai, nos anos 1950, foi o anfitrião de Jorge Amado e Zélia Gattai, que acompanhavam o poeta chileno Pablo Neruda e sua mulher Matilde Urrutia em sua primeira viagem pelo território chinês. O pai do artista era, então, uma espécie de embaixador cultural da China, mas logo caiu em desgraça no governo Mao Tsé-tung, sendo condenado ao desterro e inaugurando uma militância familiar contra o Estado, que também levaria o filho à prisão, em 2011.

Ai Weiwei foi preso nesse ano no aeroporto internacional de Pequim. Ficou quase três meses atrás das grades. O governo chinês justificou a detenção por "crimes econômicos", mas a razão verdadeira foi sua militância por meio das redes sociais, acusando as autoridades de seu país de cercear a liberdade de expressão e desrespeitar os direitos humanos. Weiwei, que atuou como consultor da dupla de arquitetos suíços Herzog e De Meuron na construção do estádio olímpico chinês em 2008 (também conhecido como Ninho de Pássaro), investigou por conta própria as causas do desabamento de escolas em Sichuan depois do terremoto de 2008. Revelou o escândalo das 'tofu-dreg schools', aquelas escolas nas províncias chinesas feitas com materiais da mais baixa qualidade, especialmente em Sichuan, onde milhares de crianças perderam a vida.

"O Estado como ideologia, em que princípios como liberdade de expressão e respeito aos direitos humanos são ignorados, é algo vergonhoso", critica Weiwei, concluindo que a sociedade chinesa sacrificou também suas reservas naturais em nome do progresso, sem deixar espaço para a criação. "É impossível que ela venha a dominar o mundo desse jeito."

Suas obras mais polêmicas, como o filme que condena a irresponsabilidade do governo chinês no episódio das escolas de Sichuan, serão exibidos em novembro na mostra dedicada ao artista em Buenos Aires pela Fundação Proa. O curador Marcello Dantas também selecionou a peça seminal que ocupou o espaço principal da Tate Modern em 2010, Sunflower Seeds, gigantesco painel com 150 toneladas de sementes de girassol feitas de porcelana.

Uma obra mais recente, Moon (Lua, 2014), concebida em parceria com o artista dinamarquês Olafur Eliasson, pode sinalizar uma possível mudança de orientação na obra de Weiwei, que o aproximaria da poética do pai. "É um projeto interativo, que extrapola os limites de território, nacionalidade e linguagem", define o artista chinês. No projeto online, o usuário da internet pode também agir como um curador digital, fortalecendo o poder transcendental da tecnologia e incentivando a criatividade dos outros internautas.

"A Alemanha tem sido um bom lugar para se trabalhar", resume Weiwei, que há dois anos mora e produz em Berlim, num ateliê por onde circulam permanentemente 20 a 30 pessoas. Elas ajudam o artista a criar suas obras, hoje disputadas pelos principais museus do mundo. Esse êxito comercial, porém, não conseguiu mudar a linha de atuação de Weiwei, que conjuga ativismo político e criação estética sem nenhum conflito. Para ele, não há possibilidade de separar os dois. Vida e obra, à maneira duchampiana, são uma coisa só.

Nos EUA, onde viveu durante algum tempo, preferia a companhia de poetas beats como Allen Ginsberg a artistas legitimados pelo mercado de arte. "Minha formação se deu numa sociedade politizada e é com tristeza que vejo a China transformada pelo capitalismo de Estado." Weiwei usou a internet para fazer o contrário do que imaginaram as autoridades chinesas ao lhe encomendar um blog em 2005. Seu ativismo político digital incomodou tanto que elas se viram ameaçadas e o proibiram de usar a ferramenta. Passou seis anos sem sair da frente do computador até que se tornou a pessoa mais vigiada da China - especialmente depois do episódio da Olimpíada de Pequim e do terremoto de Sichuan. Foi preso, teve o passaporte confiscado e só em 2015 lhe foi concedido um visto para viajar ao exterior.

Weiwei continua cético sobre a possibilidade de mudanças na China, o maior parceiro comercial do Brasil. "Não acho que ela possa ser modelo para país nenhum", diz, após ter assistido a um jogo do Palmeiras e conversado com o diretor José Celso Martinez Corrêa, criador do Teatro Oficina. "É fácil fazer negócios com um país que desrespeita a democracia e sacrifica o meio ambiente e a educação em nome do capital", conclui, referindo-se à terra natal. Mas bem poderia estar falando do país parceiro.


As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.