Em seu segundo mandato como vereador de Belo Horizonte, Wendel Mesquita (PSB) chega à Câmara Municipal com o “status” de segundo mais votado na eleição deste ano na capital. Porém, o objetivo dele é ir além. O político é um dos nomes cotados para disputar a Presidência da Casa. Em entrevista ao Hoje em Dia, ele admite que, nos bastidores, já ocorrem algumas costuras neste sentido. Outros parlamentares teriam sinalizado apoio à uma candidatura dele, da mesma forma que membros da equipe de transição do prefeito eleito, Alexandre Kalil.

Já disposto a compor a base do prefeito, ele acredita que Kalil deverá optar por um diálogo aberto com os vereadores em busca de um consenso, importante para governabilidade. No primeiro ano de governo, os projetos levados para a apreciação dos parlamentares devem visar um “enxugamento” da máquina pública. O vereador acredita que a melhoria das vilas e favelas deverá ser outro ponto de destaque, além das ocupações urbanas.

Nessa eleição, houve uma renovação grande na Câmara de BH (56%). Apenas 18, dos 38 vereadores que tentaram a reeleição, foram reeleitos. A que você credita essa mudança? E como avalia essa renovação?
A renovação já vem acontecendo nas últimas eleições no Brasil. É um anseio das pessoas de buscarem a nova política, novos ares e, na Câmara de Belo Horizonte, não foi diferente. Aqueles que não conseguiram consolidar um mandato proativo realmente não obtiveram êxito nessa eleição. Mas eu acho isso muito positivo. O parlamento tem que ser renovado mesmo porque aqui a gente representa segmentos da população.

Quando você fala que as pessoas procuram uma nova política, a que tipo de política você se refere?
As pessoas estão se afastando da política e estão desacreditadas. Então, a renovação que elas buscam são primeiramente os valores. Pessoas que têm valores éticos, valores de trabalho, de honestidade. Em segundo, elas procuram pessoas que as representam de verdade. Hoje, estão mais criteriosas em suas escolhas. Com as redes sociais, isso ficou mais notório porque há cobrança. Eu mesmo desenvolvi um aplicativo para dar transparência.

Você acredita que essa proximidade que você criou com o eleitor é que ajudou a ser um dos vereadores mais votados de Belo Horizonte?
Acho que sim. Dentre os vereadores com mandato, eu fui o mais votado e pode até observar na minha prestação de contas, eu tive um gasto bem modesto. Quando se faz comparação com o número de votos que eu tive, foi relativamente baixo porque eu busquei essa interatividade. Através do gabinete itinerante, eu tenho um local dentro da regional Pampulha, onde tive maior votação, e atendo uma vez por semana as pessoas. Acho que isso é o grande diferencial. O que as pessoas querem são novos parlamentares que representem de verdade seus anseios.

Nessa renovação política, ganharam espaço partidos com um perfil mais conservador em todo o Brasil. Como esse novo perfil pode influenciar a atividade parlamentar aqui em Belo Horizonte?

As pessoas querem um perfil diferenciado. Um perfil que se afasta daquela política antiga. São pessoas que já tinham uma trajetória empresarial e que não têm vícios políticos. A gente vê isso, por exemplo, com o Kalil que gravava os vídeos no apartamento dele, com uma equipe enxuta e transmitindo muita sinceridade no falar. Bem diferente daqueles marqueteiros tradicionais. As pessoas não querem mais as máscaras.

Nos bastidores, ventila-se seu nome como possível candidato à presidência da Câmara. Você tem intenção de se candidatar ao posto?

O que está acontecendo é fruto dessa renovação. São 23 novos vereadores e eu tenho contato com a maior parte deles. Os vereadores desejam que eu seja candidato à presidência para construir uma nova gestão na Câmara. Mas eu tenho avaliado com cautela porque quero construir isso com muita serenidade. Não pode partir de um simples desejo pessoal meu. Não é isso. Mas se houver sintonia da coletividade que está buscando isso e se a gente construir uma maioria que queira buscar essa mudança, quem sabe eu possa colocar o nome à disposição.

Mas está seguindo nesse caminho da eleição? Há grandes chances disso acontecer?
Sim. A possibilidade é real e eu já tenho dialogado com pessoas que estão na construção do Executivo. Já estive com o vice-prefeito, Paulo Lamac, com o deputado Iran (Barbosa), com Marcelo Álvaro Antônio, todos ligados ao Kalil. Estamos dialogando. O que eu vejo que é necessário para o Legislativo é construir relações harmonicamente sem criar favorecimentos. Eu não sou adepto desse tipo de política de troca de favores. Eu acho que o vereador tem que ter sua independência porque faz parte do nosso papel fiscalizar e legislar. E sempre em sintonia com o Executivo. Os bons projetos a Casa tem que apoiar e os mais polêmicos, a gente tem que abrir discussão. A Casa tem esse papel de abrir para audiência pública. Se eu fosse presidente, por exemplo, eu implementaria aqui uma série de quesitos para popularização da Casa.

E o que foi determinante para você decidir compor a base de Kalil?
A maior parte do PSB, meu partido, vamos dizer que 70% dele, caminhou com o Kalil. Então é uma tendência natural de que o PSB caminhe com o Kalil. E eu concordo com a proposta que ele está consolidando de enxugamento da máquina. Dentro dessa proposta, o Kalil tem meu total apoio. O que eu tenho achado interessante nele também é a proposta de construir com a Câmara um relacionamento maduro. Eu acho que isso tem que acontecer. Às vezes tem uma proposta do Executivo que a Casa fica meio sem entender o objetivo. Eu acho que os técnicos do Executivo precisam apresentar para a Casa, para os vereadores a real proposta, os projetos, assim como os prós e contras. Então, essa relação sadia é interessante.

E como está o relacionamento do Kalil com os vereadores já que ele foi eleito com um discurso muito forte de ser anti-político. Ele mudou esse discurso?
No segundo turno, Kalil deixou mais claro qual era o real propósito dele. Até mesmo porque no primeiro turno ele tinha pouco tempo na propaganda eleitoral gratuita. Já no segundo turno, quando ele tinha mais tempo na televisão e rádio, ele foi esclarecendo melhor essas relações.

“As pessoas querem um perfil diferenciado. Um perfil que se afasta daquela política antiga. São pessoas que já tinham uma trajetória empresarial e que não têm vícios políticos.
A gente vê isso, por exemplo, com Kalil”

 

Ele sempre falou que é contrário à velha política. Essa relação de troca de favores, de troca de espaço e de cargos. E o que ele sinalizou no segundo turno?
Sinalizou muito bem no segundo turno que os bons políticos são importantes. E ele precisa formar uma base aqui na Câmara Municipal. Se não houver uma base de maioria de, pelo menos, 28 parlamentares, ele não consegue aprovar os principais projetos da cidade. Porque o voto qualificado é de 28 votos. Então, ele já está dialogando e aí eu acho que ele começou muito bem, convidando de forma republicana todos os vereadores para um encontro. Achei uma atitude muito nobre da parte dele porque, mesmo que hajam algumas divergências entre ele e alguns parlamentares, nesse momento ele é prefeito da cidade e tem que dialogar com toda a Casa. Mas é óbvio que o Executivo tem as suas preferências.

Preferências que devem ficar mais claras na eleição do presidente da Câmara?
Sim, na eleição da Casa isso não vai ser diferente. É óbvio que quando se formarem os quadros da disputa, quando estiverem colocados os nomes, o Executivo acabará optando por alguém.

E você acredita que Alexandre Kalil vai ficar do seu lado?
A gente tem construído para isso, né. Eu, particularmente, se não houver uma construção bem sólida com o Executivo, eu nem colocarei o meu nome para a disputa, não.

E quanto à importância de se conseguir a maioria na Câmara, hoje você sente nos bastidores que ele deva conseguir esses apoios?
Está bem inicial. Essa semana começou um diálogo em um primeiro encontro com Kalil. E a partir desse encontro acho que a Casa pode sentar com Kalil e com Paulo Lamac. Certamente terão encontros individuais de cada parlamentar. Mas acredito que vá formar, sim, a base de apoio aqui.

E qual o perfil dos primeiros projetos que Kalil deve priorizar nesse primeiro ano de mandato dele?
Acho que ele vai fazer o enxugamento da máquina, que deverá ser a primeira ação dele. E ele tem mesmo que enxugar senão nós vamos virar Rio de Janeiro, que está em colapso. Essa ação deverá ocorrer nos próximos meses. Outro projeto que deverá ser prioridade dele é chegar aos aglomerados. O Kalil esteve muito presente no Taquaril, no Aglomerado da Serra, por exemplo. Ele deve se concentrar também nas ocupações que aumentaram muito em Belo Horizonte. A ocupação está realmente muito desordenada. Achei interessante também a questão dele ter sinalizado que vai se cercar de pessoas com conhecimento técnico para cada área. Ele já seguiu essa lógica na equipe de transição.

Como você avalia a relação do Marcio Lacerda com os vereadores?
O prefeito Marcio Lacerda vai deixar para a cidade um legado de uma gestão muito importante. Principalmente na área de educação onde conseguiu alcançar o objetivo de universalizar a educação infantil. Eu acho que na relação dele com a Casa faltou uma proximidade maior. Aqui, Marcio teve dificuldade de consolidar uma base. Ele tinha uma base flutuante porque quando precisava dos votos qualificados era difícil articular para aprovar projetos.

E como você acha que Kalil deveria proceder para evitar de ter o mesmo problema?
Acho que, primeiramente, ele deveria se reunir com uma certa frequência com os vereadores da base. Segundo ponto colocar em prática uma promessa de campanha dele que é a questão de fortalecer os vereadores. Os vereadores são fundamentais na proximidade com os bairros. Ele deveria atender as demandas via vereador.

Em que você vai focar nesse novo mandato?
Continuarei com os projetos que deram certo. E tem aqueles projetos que quero ampliar como o vereador na escola. Eu sou o único vereador aqui da Casa que faço esse projeto. Toda semana eu estou em uma escola pública levando palestras de educação, política e cidadania. É muito importante essa orientação dessa juventude para ter papel mais eficiente na política.