Mário Marra: 'É difícil para um homem entender o que é o machismo'

Mário Marra*
Especial para o Hoje em Dia
Publicado em 23/03/2016 às 21:44.Atualizado em 16/11/2021 às 02:37.

Não sei quando percebi que a minha diversão preferida era um lugar de homens. Sim, a única mulher nos estádios que minha memória registrou foi a minha mãe.

Alguns anos depois, uns dois ou três, aprendi que mulher, menos minha mãe, é aquilo que passa e que temos que intimidar gritando alto e forte: “tesão, passa a mão”. Gritava.

Aquilo era para mim mais um grito daqueles que o estádio repetia. Mas o que era tesão? Sim, aprendi que tesão era tesão no estádio. Eu podia apenas repetir o grito, mas um dia resolvi tentar entender o que aquilo representava. Ufa!

Eu já estava liberado para gritar que qualquer mulher no estádio era gostosa, mesmo sem saber direito, como qualquer criança de 10 ou 11 anos, o que era ser gostosa e qual seria a finalidade disso.

E mostrar mulheres sozinhas nas arquibancadas passou a ser uma diversão quase tão boa quanto a de chamar o vendedor de picolé e ver o coitado tentando saber de onde veio o grito.

Em um Atlético e Flamengo, já com uns 15 anos, ouvi um amigo me ensinar que era um absurdo uma mulher ir de short ou com uma camisa mais apertada. “Ela veio assim é porque gosta de aparecer”, “tesão, passa a mão”, “safada”.

E já podia pegar a minha carteira de macho na porta do estádio. Os preceitos estavam todos decorados. Eu era um animal e estava ali para amedrontar e ainda olhar com cara de alguém que queria pegar aquelas vadias, safadas. Passa a mão.

Que bom que muitos conseguiram apenas ver os jogos e foram domados pelos pais. Talvez muitos outros escaparam e não olharam as mulheres como um faminto ou como o cachorro que corre atrás da moto.

O tempo cuidou de acertar as coisas e trouxe a doçura do olhar diferente. Mas não teve como não me contaminar com o olhar animal comedor. Na verdade, naquela época nem roedor eu era.

Que bom que hoje não ouço mais os gritos de guerra de ontem. Mas o mal já havia sido feito a muitos. E muitos vão repetir a outros.

Mas o que leva um homem que foi casado por quase 20 anos e frequentador de estádios desde sempre a falar sobre machismo e sobre a questão da mulher nos campos de futebol?

Eu não conheço Paris, mas sei que a Cidade Luz existe. Não participei da Revolução Francesa, nem da Industrial e, por incrível que pareça, não era eu na Revolta Farroupilha.

Sei que tudo isso existiu e valorizo cada um que teve coragem de atravessar a rua em nome de um ideal. Entretanto, realmente eu não senti na pele o que sentiu quem ficou sem dormir nas diversas lutas históricas.

É difícil para um homem entender o que é o machismo. Não falo do ponto de vista do homem ou da mulher. Falo da pele, da alma. Falo de quem se viu vigiada a vida inteira e muitas vezes não pode repetir o caminho mais curto para casa.

Ou de quem apenas queria se divertir sozinha na balada e que sonhou estar feliz e solta ao ouvir a música que gosta, mas que foi interrompida pela grosseria de um aperto no braço ou até em outro lugar. E é claro que é triste ter que escolher a roupa menos confortável para uma simples volta pela cidade, já que não quer ter que ouvir o que embrulha o estômago.

Isso realmente não aconteceu comigo, mas eu posso reconhecer que é chato, difícil, relevante e revoltante. Posso reconhecer, assim como reconheço a existência de Paris e como leio sobre a Primavera Árabe.

Repito: não fui lá e nem lutei, mas posso e sinto que devo me posicionar. Se, despido do aculturamento que o estádio proporcionou, o homem reconhecer – já que não tem como ser e nem vir a ser – e levantar a voz, ao menos uma discussão fica proposta.

Não é necessário apontar o dedo para julgar se aquilo é machismo ou não, mas pode ser saudável tentar aprender com uma mulher. E aprender com a mulher não deve ser um conceito moderno, creio. Não dá para mudar tudo, mas eu posso ser diferente.

*Marra é comentarista esportivo dos canais ESPN e das rádios Globo e CBN

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2025Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por