Ângela Mathylde Soares*
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a depressão o “mal do século” e, após o Brasil aparecer na lista dos países com maior incidência, a capital mineira também entrou para a estatística dessa lamentável realidade. De acordo com a última pesquisa Vigitel do Ministério da Saúde, de 2023, a média de frequência de diagnósticos para depressão é de 12,3% nas 26 capitais e o Distrito Federal, sendo Belo Horizonte a segunda com maior índice, de aproximadamente 17,4% da população - 402.907 pessoas.
O número subiu, desde o último levantamento, em 2021, quando a cidade apresentava taxa de 17,2%, ficando, agora, atrás apenas de Porto Alegre (RS). O crescimento somente reforça a preocupação de profissionais sobre a saúde mental e a busca por qualidade de vida.
A depressão decorre de uma série de motivos. Por muito tempo, a condição foi ‘ligada à falta de Deus”, ou até mesmo, uma frescura, o que nada tem a ver, afinal o Brasil tem dois grandes exemplos de vítimas da condição, os padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo, que, recentemente, usaram as redes sociais para compartilhar a luta e anunciar uma pausa na agenda para tratamento.
A verdade é que a depressão tem origem em uma série de motivos combinados, como a genética, o cotidiano atarefado e acelerado, os problemas familiares e no trabalho, a falta de dinheiro e emprego, cobranças e o excesso de exposição às telas e redes sociais, provocando ansiedade e estresse.
É possível perceber as mudanças ao longo do tempo, através de hábitos, por exemplo, a rotina de sono, mudanças de peso, baixa imunidade, libido e uma queixa frequente de dores. Os sintomas decorrem de uma série de doenças, mas, quando combinados, maior a probabilidade de se tratar de uma depressão, indicando a necessidade de avaliação profissional.
Os indivíduos com depressão têm a tendência de dormir muito ou sofrer com a insônia, devido a modificações fisiológicas. As alterações no ciclo do sono nunca devem ser consideradas normais e nem a mudança de peso.
Assim como no caso anterior, as pessoas podem perder ou ganhar muito peso, de maneira repentina, devido a alterações hormonais decorrentes da depressão. Vale observar que, ao juntar outros problemas, como ansiedade, surge a compulsão por comida e, consequentemente, envolve o consumo de alimentos calóricos, gordurosos e doces, ou a falta de apetite, levando à magreza.
Já as dores se tornam mais comuns com os efeitos similares da depressão ao estresse, deixando os músculos tensos, levando à somatização por transformarem os sentimentos em dores físicas, mesmo sem perceberem. Neste caso, se as pessoas já possuem dores crônicas, a tendência é o desconforto aumentar.
Assim, a imunidade sofre com variações da alteração hormonal, tornando-a mais baixa que o normal, ampliando os riscos de acometimento por vírus e bactérias com respectivas infecções. A insônia e a má-alimentação também contribuem para a diminuição da proteção do organismo.
A verdade é que os cuidados com a saúde mental foram, por muitos séculos, negligenciados, considerados um tabu, sendo voltados apenas para pessoas “malucas”. Na realidade, deveria ser uma prática adotada por todos e, não apenas para diagnosticar alguma condição mental, como também, pela oportunidade de se conhecer melhor.
Afinal, trata-se de um espaço seguro para compartilhar pensamentos mais profundos e não conversados com qualquer pessoa. Devido à evolução do conhecimento sobre saúde mental, cada vez mais brasileiros buscam auxílio e ajudam quem necessita de amparo, mas possuem medo ou sequer percebe a realidade em que se encontra, completamente estagnada, sem perspectiva e vontade de viver. Quanto mais rápido o diagnóstico, mais assertivo é o tratamento, controlando os efeitos bastante incômodos, antes de evoluírem.
* Neurocientista, psicanalista e psicopedagoga