Gestor de Futebol pela CBF Academy e pela Universidade do Futebol, pós-graduado em Direito Desportivo e Negócios no Esporte.

A motivação através da vertente tática

Publicado em 17/01/2023 às 06:00.

Quando pensamos em motivação de equipes de futebol, logo nos vem à mente os discursos inflamados dos vestiários, o tapinhas nas costas, o abraço apertado e uma cobrança intensa no dia a dia. Tudo isso é válido e faz parte de um processo de liderança, mas, que por si só, é inócuo. A vertente táctica do jogo é fundamental para manipular as emoções no grupo de jogadores e José Mourinho pode provar isto.

Ao retornar de férias no Porto FC para a temporada de 2003/2004, o treinador José Mourinho tinha uma preocupação importante: a equipe tinha tido uma época anterior maravilhosa, ganhando tudo, ou seja, a Taça de Portugal, a Liga e a Taça UEFA. O comandante português estava receoso com o nível mental e psicológico dos jogadores e a questão era de como mantê-los focados novamente.

A grande maioria das pessoas buscaria “encurtar a rédea" dos jogadores através de uma disciplina extra-campo, com medo de que os atletas deitassem mais tarde ou bebessem copos a mais de bebida alcóolica. Mourinho não tinha este temor, pois para ele a disciplina deveria vir através de um maior rigor tático. Sendo assim, definiu por uma troca de sistema da equipe, passando a utilizar um 1-4-4-2 em detrimento do então 1-4-3-3. Mas, ora bolas, o que isto muda? Tudo!

O 1-4-4-2 é uma estrutura muito mais tática. No 1-4-3-3, ao início da partida, já temos naturalmente uma equipe equilibrada nos espaços e não é necessário pensar muito para entender a distribuição dos jogadores pelo relvado, ou seja, basta que as respectivas posições sejam ocupadas. Já no 1-4-4-2 é preciso muito mais desgaste cognitivo, pois o preenchimento racional do campo não é tão óbvio. A começar que não existe, a priori, um jogador aberto. Os laterais podem atacar em profundidade mas terão dificuldades se não houver compensações adequadas. Se os jogadores do meio, em losango ou quadrado, caírem pelas pontas, a depender, poderão oferecer inferioridade numérica por dentro. No ataque, com dois avançados, se jogarem com muita mobilidade, podem deixar a faixa central sem ninguém para finalizar a jogada.

Portanto, fica claro que a mudança de sistema obriga os jogadores a serem muito mais disciplinados e concentrados para dar certo. Assim, Mourinho encontrou na tática uma forma de tirar os seus liderados da zona de conforto e conduzir o FC Porto, naquela altura, ao título da UEFA Champions League.

A Escola Portuguesa é pioneira em lecionar que a tática deve ser a referência de todo o processo de treinamento, levando as outras vertentes (física, técnica e mental) a seguirem por arrasto. Devemos sempre buscar processos de gestão de pessoas eficazes, no entorno das personalidades humanas, mas, também compreendendo a complexidade que o futebol exige. Muitas das vezes, broncas e palavras bonitas não são capazes de organizar o seu time.

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