Caio Caldeira*
Você com certeza já ouviu falar do filósofo René Descartes, que se tornou conhecido por desenvolver o método científico cartesiano, também conhecido como pensamento analítico. O método defendia a redução e a fragmentação das partes para se estudar a totalidade, ou seja, quebrar os problemas em partes menores e resolvê-los individualmente.
Este método dominou por séculos a ciência e também o futebol, em que o desempenho das equipes são analisados separadamente em cada uma das suas vertentes: tático, físico, psicológico e técnico.
Assim, as análises sobre o jogo se tornam excessivamente simplistas ao negligenciar a complexidade e a interdependência de todos sistemas e subsistemas relacionados ao futebol. Jornalistas, por vezes, ignoram as complexas interações entre os jogadores e os diferentes fatores que afetam o desempenho da equipe como um todo.
Para entender melhor o futebol, é necessário adotar uma visão sistêmica e holística. Essa abordagem reconhece que o jogo é um sistema complexo, em que as partes estão interconectadas e influenciam-se mutuamente. O todo é maior do que a soma das partes, justamente por suas relações. Uma equipe de futebol é, essencialmente, um conjunto de relações (jogadores) que se estendem para se conectarem a outras coisas (comissão técnica), que também se conectam simultaneamente a outras coisas mais (ambiente, torcida, diretoria, objetivos, cultura).
A natureza essencial de uma equipe de futebol não está nos jogadores ou na comissão técnica, mas nas conexões entre eles, bem como nestas conexões com tudo que envolve o jogo e um clube de futebol. As análises de jogadores individuais podem existir sim, mas considerando sempre a forma como eles interagem entre si e como são influenciados por fatores externos.
Uma visão cartesiana é inadequada e leva a uma compreensão injusta do jogo. Se queremos aproveitar todo o potencial do futebol, precisamos abandonar a abordagem reducionista e adotar uma abordagem mais abrangente e integrada.
*Gestor de Futebol pela CBF Academy e pela Universidade do Futebol, pós-graduado em Direito Desportivo e Negócios no Esporte