O conto folclórico japonês "Ubasute" fala de um tempo em que famílias levavam seus idosos para morrer nas montanhas. Hoje, as estações de trem do Japão moderno são as novas montanhas. Em 2019, as câmeras de segurança da estação de Fukuoka flagraram um homem de 69 anos deixando sua mãe de 90 anos em um banco, com uma muda de roupa e uma garrafa de água. "Ela gosta de ver a movimentação", diria depois à polícia, num eco perturbador da lenda antiga. Mais adiante, ele disse que não estava dando conta de cuidar da mãe e de si próprio e que teve que fazer a pior escolha de sua vida: decidir quem deveria viver, uma vez que estava esgotado física e emocionalmente e não conseguia colocar a mãe em um lar para idosos.
Os números contam uma história que dói muito e que afeta a todos nós, no mundo todo, já que estamos vivendo mais e experimentando o envelhecimento para além dos 70 anos de idade. No Japão, por exemplo, 63% dos cuidadores de idosos têm mais de 60 anos, segundo o Ministério da Saúde. São filhos grisalhos cuidando de pais centenários, numa equação impossível.
O caso da senhora Satsuko Yamamoto, de 78 anos, virou símbolo dessa crise. Por dez anos, cuidou da mãe de 102 anos com demência, até o dia em que ambas foram encontradas desidratadas - a filha havia desmaiado de exaustão ao lado da cama onde a mãe já não estava mais com vida. "Perdi a noção de quantos dias não dormia", confessou depois ao "Asahi Shimbun", um dos mais antigos jornais diários do Japão e da Ásia.
Psiquiatras como o Dr. Kenji Shimizu alertam para a "síndrome do cuidador esgotado": "São pessoas que chegam a desejar a morte do ente querido como forma de amor - e depois não suportam o peso desse pensamento". Isso não acontece somente no Japão. Aqui no Brasil, já temos relatos similares, envolvendo filhos que são cuidadores de pais idosos e, também, de mães atípicas que, abandonadas por seus companheiros, assumem sozinhas a responsabilidade do cuidado e da criação dos filhos.
Lá no Japão, o governo responde com campanhas como a "Comunidade de Cuidados Compartilhados", mas, nas ruas de Tóquio, a realidade é mais crua. Como a do senhor Akira Watanabe, 71, visto empurrando a cadeira de rodas da mãe de 94 anos em frente ao Hospital St. Luke's por três dias seguidos, até que a segurança percebeu: ele esperava que alguém a recolhesse. É tão difícil escrever um caso desses, pois, claramente, o filho não deixou de amar a mãe. Ele só não tinha mais como, por falta de saúde e recursos, dar o melhor que ela precisava.
A versão moderna do "Ubasute" não termina com o filho voltando para resgatar a mãe da montanha. Termina com estatísticas frias: em 2022, 147 casos de homicídio-suicídio envolvendo cuidadores e idosos foram registrados (National Police Agency). Termina com estações de trem onde velhinhos ficam sentados por horas, uma muda de roupa no colo, esperando um trem que não vem - o trem da dignidade, da compaixão, da sociedade que prometeu não deixar ninguém para trás.
No Brasil, em 2022, um homem de 58 anos deixou sua mãe de 89 anos, que tinha demência, sentada em uma cadeira de rodas na porta de um lar para idosos, na Zona Leste de São Paulo. Nas câmeras de segurança, é possível vê-lo arrumando uma sacola com roupas e documentos ao lado da idosa antes de ir embora sem se identificar. Quando localizado pela polícia, o filho explicou com voz cansada: "Eu trabalhava o dia todo, não tinha dinheiro para cuidar dela e já não aguentava mais as crises de agressividade". A cena, que poderia ser um caso isolado, revela, na verdade, um drama atual.
Histórias como essa se repetem de formas diferentes. No mesmo ano, o Disque 100 recebeu 48 mil denúncias de violência contra pessoas idosas - 7,2 mil eram casos de abandono. Dois anos antes, em Belo Horizonte, uma filha de 62 anos foi presa após sua mãe, de 90 anos, ser encontrada morta em condições degradantes. "Eu não tinha ajuda, não sabia mais o que fazer", disse a cuidadora, que enfrentava sozinha a exaustão de cuidar de uma idosa com demência avançada.
Sem políticas públicas eficientes e uma rede de apoio adequada, muitos cuidadores se veem diante de um dilema impossível: continuar cuidando sem condições ou abandonar quem um dia cuidou deles. Enquanto isso, a população brasileira envelhece a passos rápidos, e o problema só faz crescer.
O Japão ensina que envelhecer pode ser a mais solitária das jornadas. E nos faz perguntar: quantos passos nos separam dessas estações vazias?